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O tacho de ouro

Na aprazível cidade de Inhuma, região central do Piauí, entrevistamos longamente um “arquivo vivo” do Município, o Sr. Raimundo Gomes Pinheiro, o seu Mundoca, sobre as lendas e causos da região. Foram muitas informações que captamos dele e de sua receptiva família.

Então lúcido e amável ancião, o inhumense nasceu em 1906, estando com seus 92 anos bem vividos na época de nossa entrevista em sua acolhedora residência (1998). Nosso bate-papo foi acompanhado na sala por sua gentil esposa, seu filho e outras pessoas da família. Sua simpática esposa, dona Raimundinha, que é sua inseparável companheira há 65 anos (na época da entrevista), sempre esteve presente nas nossas conversas, corroborando as histórias do marido, ou recordando-lhe docemente detalhes relegados por esquecimento. Os dois já faleceram.


SEU MUNDOCA E DONA RAIMUNDINHA.

 

Seu Mundoca, o Sr. poderia nos contar alguma história de botijas encantadas?- Pedimos.

Posso sim. Eu conheço muitas histórias. Afinal, eu já passei dos 90. Mas vou lhe contar uma muito interessante, e que é verdade pura. Isso eu soube quando eu ainda era criança. Eu conheci bem o caso e as pessoas na época. E pode acreditar.

No curral velho onde morava seu Antônio Nogueira, o velho Eduardo Preto, um antigo escravo, sonhou que no forno de torrar farinha havia um reluzente tacho de ouro. Era uma riqueza medonha. Aí ele ficou muito impressionado com a mensagem. Esse Eduardo correu animado até a casa de seu amigo Mané Grosso e contou o impressionante e revelador sonho. Queria um companheiro na sorte grande. 

Combinaram secretamente os dois de irem arrancar o tesouro à noite, sem que ninguém das redondezas percebesse o movimento. Alegre, o Mané Grosso dizia que de agora em diante não iria mais trabalhar. Agora, os outros é que iam trabalhar pra ele. Só ia comer carne de gado, vestir roupa boa, de linho, e ouvir música de radiola...

Pois bem. Lá se foram os dois sorrateiramente, à noitinha, carregando as pás. O Eduardo levava um lampião para alumiar o lugar do tesouro. Tava tudo escuro e o povo das redondezas já tava tudo dormindo. Foram no exato local indicado pelo sonho. Cavaram um pouco a terra e logo viram a tampa do tacho de ouro. A luz do lampião clareou o tesouro, deixando tudo brilhante. Os olhos do Mané Grosso quase que pularam da cara. Brilhavam mais do que o tesouro, de tanta felicidade e cobiça. O Eduardo ficou só esfregando as mãos e com uma cuspideira medonha.


O TACHO DE OURO. IMAGEM ILUSTRATIVA. FONTE:
http://coisasdeumachef.blogspot.com.br/2010_08_01_archive.html


Aí o Mané Grosso, mais afobado, começou a encher as mãos com as moedonas de ouro, como se não acreditasse na maravilha que via. Nesse nervosismo, uma das moedas caiu da mão dele no chão, bateu numa pedra e trincou. Aí tudo virou carvão de uma só vez. È como diz a ciência...

Olharam dentro de todo o tacho e agora só havia pedaço de carvão. Tudo virou carvão. De amarelo, ficou tudo preto. Foi uma triste desilusão para os dois. Estavam com tudo nas mãos, todo aquele dinheirão, e agora não tinham mais nada. Tavam mais lisos do que quiabo na goela.

Entristecidos pela má sorte, os dois amigos se retiraram desanimados do local, fracassados naquele intento. Perderam a sorte de ficarem ricos por bobeira. 

Perto do lugar onde aconteceu tudo havia umas casinhas bem pobres, mas ninguém viu o rebuliço do local. De manhã, um dos caboclos das casas passou pela casa de farinha e viu a arrumação da terra remexida com a escavação. Foi lá e viu o tacho cheio de carvão. Estranhou e resolveu investigar.

Curioso, o caboclo matutou aquela arte e por pressentimento, deu umas pancadinhas no tacho e o ouro se desencantou na sua vista. O bigode do homem quase entrou pelo nariz... Era ouro demais. Parece que o cabra era rezador. Conhecia as coisas escondidas. Pegou o ouro e desapareceu para sempre. Ficou rico e foi gastar longe...

Só depois é que o velho Eduardo e o Mané Grosso souberam. Aí mesmo é que a dor deles aumentou...

Eles não sabiam dessa ciência.

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