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“Macaco” assaltou Teatro 4 de Setembro

E roubou bebidas para beber mesmo ou para revender, o macaco safado e biriteiro. Sim, foi há muito tempo, em 1913, há praticamente 102 anos. Mas não estamos nos referindo aos macacos gatunos da África do Sul, de Gibraltar (Espanha) ou da Índia, pessimamente influenciados pela presença humana.

Havia nos tempos antigos um bar que funcionava anexo ao formoso teatro teresinense, na atual Praça Pedro II, até hoje orgulho de sua população. Foi um ocorrido curioso em tempos idos, quando ainda estavam instalando os equipamentos de iluminação elétrica na Cidade.

A atual Praça Pedro II era chamada então de Aquidabã (até 1922), depois independência (até 1938), sendo na época do ocorrido completamente de chão nu, sem lagos, balaústres, estátuas, tendo como único equipamento arquitetônico importante o nosso teatro. Naquela época o point da elite piauiense, com restaurantes, cafés, jornais, lojas, farmácias gravitava em torno da Praça Rio Branco, chamada de Uruguaiana até um ano antes.

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ASSIM ERA A PRAÇA PEDRO II (ENTÃO AQUIDABÃ) COM O TEATRO 4 DE SETEMBRO COMO ÚNICA EDIFICAÇÃO IMPORTANTE. IMAGEM DE AUTORIA DESCONHECIDA. DATAÇÃO PROVÁVEL EM TORNO DE 1910.

Naqueles tempos era arrendatário do botequim do teatro o Sr. José Nunes de Siqueira, um conceituado comerciante que residia na Praça Saraiva. Mas como um macaco pode ter roubado bebidas? A bem da verdade foi o jornal oficial da época Diário do Piauhy que noticiou o caso com o irônico nome de um “símio”, fonte de toda a matéria abaixo exposta.

Tudo aconteceu quando na noite de 21 para 22 de junho de 1913 o indivíduo Raimundo Lucas de Alcântara, vulgo Macaco, menor de 14 anos de idade, foi surpreendido na Av. Antonino Freire, carregando consigo quatro garrafas de cerveja, outras quatro de cola (bebida cabonatada doce) e outra, contendo pequena quantidade de conhaque.  Tudo isso havia sido surrupiado sutilmente do botequim do Sr. Siqueira, no teatro. Nessa época glamorosa, mas de poucas diversões na Capital, as pessoas podiam tomar seus drinks antes, durante, nos intervalos e após os espetáculos teatrais.

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IMAGEM MERAMENTE ILUSTRATIVA. APESAR DE MUITO JOVEM, “MACACO” ERA CHEGADO A UMAS BIRITAS. FONTE: BBC.

Macaco foi detido por outros dois menores, Raimundo Nonato Messias, residente na Rua do Fio (hoje Coelho Rodrigues) e Benedito Honório dos Santos (residente na Rua Quintino Bocaiúva). Os dois haviam saído de um baile nas proximidades da Praça Aquidabã (hoje Praça Pedro II) e, ao passarem em frente do Teatro, ouviram estranhos rumores no compartimento onde ficava o botequim. Mas, àquelas horas da noite? Num escuro que nem breu? Seria algum rato morto fazendo bagunça no escuro? Os jovens concluíram acertadamente que algum gatuno estava a se apossar do que não lhes era de direito e colocaram-se a uma prudente distância, de tocaia, donde pudessem presenciar a passagem do suspeito ou dos suspeitos.  Afinal, a patrulha policial noturna se deslocava com frequência e não estava lá no momento, o ponto de referência policial. Nesse tempo haviam dois postos volantes de vigilância policial noturna: Frente ao Mercado (Praça Marechal Deodoro) e Teatro 4 de Setembro (atual Praça Pedro II).

Com efeito, não muitos minutos depois os dois viram Macaco saindo rumo a Igreja São Benedito pela Avenida Antonino Freire e agarraram o meliante. Surpreendido com a súbita pressão, o jovem ladrão a principio mentiu, dizendo que havia pegado as garrafas em um baile, a mando de um quitandeiro de nome Sigisnando Thomaz Rodrigues, em cuja casa iria deixar os produtos. Porém não demorou muito sua explicação e confessou o furto do botequim do teatro.

Os dois menores, como conheciam o Sr. Siqueira, levaram naquela noite Macaco aberturado pela camisa para a casa do proprietário do botequim, que ficava na Praça Saraiva. Quando os três já se aproximavam da residência, encontraram o cabo da patrulha José Raimundo de Lima, a quem entregaram o gatuno, após explicarem-lhe o ocorrido. Já estava em andamento a peregrinação prisional de Macaco...

O adolescente infrator foi levado pelo soldado para o quartel do Corpo de Polícia, onde o oficial de Estado mandou que este soldado o conduzisse de volta até a porta do teatro onde deveria estar de volta a autoridade policial que nessa noite dirigia a patrulha.

Interrogado a respeito pelo soldado no trajeto do quartel à porta do Teatro, Raimundo Macaco confessou novamente o seu pequeno crime, acrescentando que já tinha praticado tal delito outras vezes, convidado que foi por outro menor, e que vendia o produto surrupiado ao quitandeiro Sigisnando, a 800 réis a garrafa.

Ali, na frente do Teatro 4 de Setembro, o pequeno ladrão e o soldado se encontraram com outros policiais, entre os quais os cabos Miguel Barbosa de Moraes, e Manoel Dionísio de Lima, ambos residentes antiga Rua Barrocão (atual Av. José dos Santos e Silva). Também para estes Macaco confessou que ia vender as garrafas que retirou do botequim do Sr. Siqueira ao quitandeiro Sigisnando, a 800 réis cada.

Minutos depois, chegaram à frente do teatro os subdelegados do 2º e 3º distrito, respectivamente Joaquim Antônio de Moraes e Manoel Francisco Monteiro, aos quais o gatuno repetiu a confissão feita anteriormente aos praças, declarando ainda que tinha como companheiros de ladroagem os menores José Monteiro da Silva, também de 14 anos de idade e Benedito Alves dos Santos Teixeira (vulgo Inhozinho), de 16 anos. 

Ouvida aquela confissão, os policiais e o detido foram até a residência do Sr. Siqueira na Praça Saraiva e restituíram as garrafas ao seu legítimo proprietário. Depois, sempre arrastando Macaco pela coleira trataram de capturar os dois referidos comparsas. Apreendidos em suas moradias foram juntamente com Macaco, todos conduzidos imediatamente à Casa de Detenção, no antigo Campo de Marte, onde hoje fica o Ginásio Verdão.

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ENTRADA DA VELHA PENITENCIÁRIA DO CAMPO DE MARTE, DEMOLIDA NOS ANOS 1970 PARA A CONSTRUÇÃO DO GINÁSIO VERDÃO. MACACO E SEUS COMPANHEIROS DORMIRAM NAS SUAS DEPENDÊNCIAS. FONTE: JORNAL O ESTADO, TERESINA 18 DE ABRIL DE 1975.

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MACACO QUASE LEVOU A FALÊNCIA O SR. SIQUEIRA, MAS ACABOU PRESO. IMAGEM ILUSTRATIVA. FONTE: WWW.FLICKR.COM.

Passada a noite no presídio, pela manhã os três jovens amigos do alheio foram gentilmente convocados pelas competentes autoridades para comparecerem à Secretaria de Estado da Polícia para prestarem depoimento. A autoridade máxima envolvida era o chefe de Estado de Polícia, o barrense Fenelon Ferreira Castello Branco (1874-1925), juiz de direito, poeta e  acadêmico da APL.

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O SECRETÁRIO DE POLÍCIA FENELON CASTELLO BRANCO PRESIDIU O INQUÉRITO CONTRA OS MENORES ACUSADOS. FONTE: HTTP://POETAELMAR.BLOGSPOT.COM.BR.

Raimundo Macaco e um dos comparsas, José Monteiro da Silva, de 14 anos,  confessaram o furto ao botequim. Benedito Alves dos Santos Teixeira, o pivete de 16 anos, negou a princípio sua participação no delito. Porém os dois primeiros que confessaram declararam às autoridades que a inclusão do quitandeiro Sigisnando como receptador fora resultante de pressão exercida sobre eles pelos subdelegados Joaquim Antônio de Moraes e Manoel Francisco Monteiro.

Macaco confessou ao chefe de Polícia Fenelon Castello Branco que, por duas vezes penetrou ocultamente, alta noite, no referido botequim, donde retirou garrafas de bebidas. E que no estabelecimento penetrava furtivamente depois de saltar o muro e conseguir abrir a porta que dá do quintal do teatro para o estabelecimento do Sr. Siqueira.

O arremedo de símio disse que pretendia se embriagar com aquelas bebidas na escuridão do patamar da Igreja São Benedito, no que foi interceptado pelos jovens que o detiveram. E ainda que a acusação de receptação do quitandeiro Sigisnando foi em razão do açoite que recebera do subdelegado Joaquim Moraes, para que envolvesse o comerciante, talvez um rival do mesmo.

Entretanto, o meliante caiu em contradição diversas vezes afirmando, perante as autoridades presentes, sem nenhuma coação, que realmente vendera produtos de roubo ao quitandeiro Sigisnando Rodrigues, à razão de 800 réis a garrafa.

Ademais, todas as testemunhas foram incontestes em afirmar que Raimundo de Alcântara Macaco fizera a revelação de vender bebidas a Sigisnando, antes de ser apresentado a qualquer autoridade policial superior, como aos dois menores que o apreenderam na Av. Antonino Freire e aos três cabos de polícia.

Outra testemunha foi João Luiz Dias do Nascimento, residente na Rua da Estrela (hoje Desembargador Freitas), que declarou estar presente na porta do teatro quando viu o ladrão com as garrafas e ouviu dele a afirmação que iria vendê-las ao quitandeiro. Isso foi antes de sua detenção, é claro.

E mais: o trombadinha declarou ainda que durante sua hospedagem na cadeia apenas teve um bate papo descontraído com o cabo Manoel Barbosa que ali então estava de guarda, mas que nem ele nem  qualquer outra pessoa o insinuara para dizer algo que não fosse a verdade.

Quanto ao menor José Monteiro da Silva, este confessou que praticara o furto no botequim do teatro apenas uma vez, surrupiando dali três garrafas de cerveja, que foram escondidas em um cano da casa do Sr. Nicolau Tajra, donde ao amanhecer, retirou-as e foi vendê-las ao quitandeiro Sigisnando, a 700 réis cada. O Sr. Nicolau Moyses Tajra era um imigrante sírio proprietário de loja situada à Rua Paissandu, sendo Loja Minerva nos anos 1910 e com o nome alterado para Loja Primavera na década de 1920.

Voltando ao caso policial, o malandrinho José Monteiro da Silva afirmou no inquérito que o dito quitandeiro Sigisnando lhe perguntara depois do primeiro furto se não tinha mais alguma cervejinha para vender. Acrescentou que aquela declaração era de livre e espontânea vontade e que nenhuma autoridade lhe coagira a fazê-la.

Quanto ao terceiro menor, Benedito Alves dos Santo Teixeira (vulgo Inhozinho), de 16 anos, finalmente este cedeu ao interrogatório e confessou realmente que adentrou na calada da noite o botequim do Sr. Siqueira, de onde furtou duas garrafas de cerveja, as quais bebeu. O Inhozinho finalmente admitiu que era pinguço...

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SERIA MAIS OU MENOS ASSIM O INHOZINHO? FONTE: ow-baralho.blogspot.com

Aos três menores infratores foi dado curador, no caso a quem cabia defender os incapazes juridicamente, na conformidade do regulamento do Serviço de Segurança Pública do Estado da época. Este curador prestou o compromisso legal e assistiu aos termos do inquérito. Foram postos em liberdade no dia seguinte à prisão, precisamente no dia 24 de junho às 17 horas, visto haver sido apenas correcional a prisão deles. 

O Sr. José Nunes Siqueira, proprietário do botequim do teatro avaliou seu prejuízo causado pelos três pivetes perante as autoridades na quantia de cento e oitenta e dois mil réis.

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SERIA APROXIMADAMENTE DESTA MANEIRA O BOTEQUIM DO SR. SIQUEIRA? FONTE: WWW.TJRJ.JUS.BR.

Quanto ao quitandeiro Sigisnando, este foi preso para abertura de processo.

A perícia da polícia efetuou levantamento no botequim arrombado, que ficava no salão do teatro e constatou que ali havia vestígios de arrombamento de uma das portas e de uma das caixas onde eram guardadas muitas garrafas de bebidas. Ficou ali a dúvida se os meliantes seriam enquadrados em crime de furto ou roubo (houve violência de arrombamento).

Depôs ainda na Secretaria de Polícia neste inquérito o Sr. Belisário José Nunes Bona, residente à Rua Álvaro Mendes, que disse ter escutado um tal Francisco Solano dizer que um cidadão de nome Raimundo Marinho lhe dissera, comentando sobre a prisão de Sigisnando, que já o tinha visto comprar cerveja até a 500 réis a garrafa. Caiu o preço...Afinal  o produto era cabrito...

O sobredito Raimundo Marinho foi intimado para depor e disse que realmente conversou com Francisco Solano sobre vários assuntos, inclusive sobre o roubo do botequim, mas negou que dissera haver visto Sigisnando comprar cerveja. Francisco Solano também depôs e seu depoimento entrou em contradição com o de Raimundo Marinho. O pagode ficou instalado...

Entraram em providencial e corporativista socorro do quitandeiro Sigisnando Rodrigues 26 conceituados comerciantes de Teresina, que fizeram um abaixo assinado abonando sua ilibada conduta. Para aquela época tantas manifestações de solidariedades tinham um peso relevante no conceito social e policial de um cidadão.

Resultante do inquérito os três menores infratores foram enquadrados no crime de furto. O certo é que o pequeno o crime foi denunciado no ministério público embasado na velha Lei n º 628, de 28 de outubro de 1899, Art. 1, nº 1.

Quanto ao quitandeiro Sigisnando Thomaz Rodrigues, em que pese o apoio de comerciantes locais, o inquérito concluiu que havia suspeitas ou indícios de cumplicidade no referido delito, ou seja, teria agido como receptador de produtos furtados, sabendo que eram ou poderiam ser de origem delituosa.

Entretanto, o quitandeiro teve uma representação advocatícia de respeito, através do jovem bacharel Christino Castello Branco (1892-1983), futuro vice-presidente do TRE do Estado, que contestou com sucesso a participação de seu cliente no referido crime de receptação, invocando, sobretudo, seus precedentes honrosos e a lisura de suas transações com clientes e comerciantes em seu comércio, isso há muitos anos. O advogado Christino Castello Branco era pai do escritor, contista, jornalista, e acadêmico da ABL Carlos Castello Branco (1920-1993).

Quanto ao futuro de Macaco e seus comparsas, nada mais sabemos.

Não deixa de ser curioso sabermos que algumas pessoas que leem esta matéria de maneira talvez até superficial e despretensiosa podem ter alguma relação, direta ou indireta, genética ou não, histórica ou não, com algumas das personagens envolvidas no episódio....

A memória histórica, familiar e pessoal é curta...

Fontes:

Coutinho, Reinaldo. Arquivo pessoal.

Jornal Diário do Piauhy. Edição do dia 24 de junho de 1913.

Jornal Diário do Piauhy. Edição do dia 06 de julho de 1913.

 

 

 

 

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