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Memórias de Campo Maior: o caso Manuel Umbigudo

O bacharel em Direito, juiz e desembargador campo-maiorense Augusto Ewerton da Silva (1862-1939), nomeado presidente do Tribunal de Justiça do Piauí em 31 de dezembro de 1927, escreveu o relato abaixo em Amarante, às margens do Rio Parnaíba, em agosto de 1913. O tema de sua matéria refere-se a um caso ocorrido quando de suas estadas na cidade natal de Campo Maior. Trata-se do caso policial envolvendo o valentão Manuel Umbigudo, que se passa talvez por volta de 1900. Foi publicado no jornal Diário do Piauí, de 28 de agosto de 1913. Mas, como dissemos, o princípio do caso, presenciado por Ewerton, refere-se aos primeiros anos do século XX, talvez na faixa 1900-1902.

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JUIZ AUGUSTO EWERTON E SILVA. REPRODUÇÃO

Diz Ewerton, com ortografia atualizada:

Por esse tempo corria a fama de Manuel Umbigudo, assim conhecido pelo defeito que apresentava a cicatriz umbilical, um tanto saliente. Era um descendente da raça africana, corpulento, de quarenta anos mais ou menos, fala apressada, trazendo sempre as mangas arregaçadas, deixando ver os braços roliços e musculosos, atestado de sua excepcional força física. O Espantalho dos soldados de polícia da vila, os quais o evitavam.

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PODEMOS IMAGINAR LIVREMENTE MANUEL UMBIGUDO NESTA APARÊNCIA. FONTE: SEMTETOFORUM.ORG

Estava designada uma eleição. Da capital tinha ido uma força de soldados de linha, muito tímidos no interior. Limitávamos nós uma daquelas revistas da Guarda Nacional, ali pela Rua da Câmara Municipal, quando ouvimos tropel de gente que vinha por um dos becos, em grande vozeria. Súbito, salta sozinho Manuel Umbigudo, o qual, dando de costas, ia gritando não venham, dirigindo-se para os soldados de linha (como eram conhecidos os soldados do exército nacional) que lhe seguiam, acompanhado da onda popular.

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IMAGEM ILUSTRATIVA. OFICIAIS E SOLDADOS DA ANTIGA GUARDA NACIONAL. FONTE: TABERNADAHISTORIAVC.COM.BR.

Os soldados, entretanto, baionetas em punho, se aproximaram de Manuel Umbigudo, cercando-o num quadrado, dentro do qual este, girando sobre si mesmo, gritava sempre para os soldados que “não viessem senão morriam”. Nós, ao vermos a pacata rua transformada, de chofre, em tal estado bélico, nos recolhemos a uma casa, e dali, das janelas, íamos observando o que então se passava. Os soldados investiam contra Manuel Umbigudo e logo recuavam, tendo-o sempre no quadrado. A meninada curiosa se acotovelava por entre a massa popular que estacionava no beco, guardando a distância. Súbito, num abrir e fechar de olhos, Manuel Umbigudo, após giro rápido sobre si mesmo, deslizava-se com tal agilidade por entre os soldados, que estes quando supunham tê-lo á mão, viram, com surpresa, que ele ia rua acima, em vertiginosa carreira, soltando, com todas as forças dos seus pulmões, repetidos conheçam, que iam afastando a todos, tal o timbre com que soavam. Os soldados, que ao lhes escapara Manuel Umbigudo, seguira-nos logo, mas debalde, que ele se lhes avantajava sempre na carreira até que, além da Rua do Sol, internando-se no mata-pasto, desapareceu completamente às vistas dos mantenedores da ordem, semelhante a uma piaba no rio Surubim.

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O PAGODE COM MANUEL UMBIGUDO OCORREU EM RUAS DE VELHAS CASAS COMO ESTA, EM CAMPO MAIOR. FONTE: PORTALDECAMPOMAIOR.COM.BR.

Os soldados voltaram e deram o resultado à autoridade competente, que nada mais ordenou, tal a certeza que tinha da inutilidade da diligência. Manoel Umbigudo, àquela hora, já estava em casa, em sua moradia, que ficava perto da Vila, e donde ninguém o arrancaria. Além disso, não se tratava de crime por ele cometido, mas apenas de uma medida de polícia administrativa, que tomara aquela proporção pelo fato de se tratar do Manuel Umbigudo e serem os soldados de linha os encarregados da diligência.

Passaram-se os tempos. Um dia, à porta de uma das casas cobertas de palha de carnaúba e tapadas de taipa, como eram todas as da Rua dos Negros, numa extremidade da Vila, e onde, em noites luarentas, rufava o tambor, afluíam os pacatos habitantes da localidade, sinal de que algum fato extraordinário se tinha dado. Até lá cheguei também acompanhando pessoas de casa. Fiquei penalizado com o quadro que se nos desdobrava à vista; o cadáver de Manuel Umbigudo estava estendido sobre uma esteira, e ao redor dele, os circunstantes que lamentavam o ocorrido, raros, como eram, naqueles tempos, os crimes. O cadáver tinha a camisa aberta, descobrindo-se na região toráxica anterior, um pouco abaixo do peito esquerdo, uma facada, uma lesão corporal, que tinha sido a causa da morte daquele homem de tão rija musculatura. As mulheres, olhos fitos no cadáver, murmuravam lamentações, chorando algumas delas: Era assim este mundo, cada qual tinha a sua sorte, diziam.

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IMAGEM ILUSTRATIVA ANTIGA DE UMA CASA DE TAIPA E PALHA, SEMELHANTE A QUE MANUEL UMBIGUDO VIVIA E ONDE MORREU. FONTE: ARQUIVO.GELEDES.ORG.BR.

Então, um dos circunstantes dirigiu-se aos condutores do cadáver, interrogando como se tinha dado o fato: Eu lhe conto, respondeu o homem. Uma porca de Manuel Umbigudo estava entrando no quintal do José Dorotheu (mais conhecido por José Magro). Este a matou. Por isso Manuel Umbigudo, armado de chequeirador (tira de couro cru presa a um bastão ou cabo para açodar os animais domésticos) vai a casa de José Magro que, nesta ocasião, “consertava”, com uma faquinha, uns peixes, bem “desencalmado”. Aí penetrou Manuel Umbigudo e perguntando a José Magro por que tinha matado a porca, levantou o chiqueirador. Nisto José Magro, que já lhe tinha “arrequerido” que não o precipitasse, vendo que era surrado, “alevantou-se” e “plantou” a faca no Manuel Umbigudo, que caiu morto”.

Os circunstantes que guardavam profundo silêncio, ouvindo atentamente a narração do fato, lamentaram o ocorrido, pois José Magro era homem pacato e ordeiro. E onde está José Magro, perguntaram alguns aos condutores do cadáver? Desapareceu, responderam estes. A Polícia procedeu às diligências devidas, e o processo foi instaurado contra o delinquente. Correu depois a notícia de que José Magro se achava homiziado numa vila do Estado vizinho (Ceará). Mas o crime foi caindo no olvido, tal a atenuada impressão que havia produzido, atentas às circunstâncias de que se tinha revestido.

Passados já são mais de dez anos. Funcionou o júri da vila. Para ser julgado, vem da respectiva cadeia pública, escoltado, um réu que há pouco tempo tinha se apresentado à justiça Pública: alto, velho, cabeça completamente encanecida, da mesma forma que as crescidas barbas. Era José Magro, alquebrado pela idade avançada, pelos sofrimentos morais e pela ausência prolongada de sua terra. O auditório está emocionado ante a figura do réu, subindo a ponto a sua comoção quando descobre quem ele é. Corre o julgamento até os seus termos finais. E quando o juiz acaba de ler a sentença, o réu, que humilde e cabisbaixo ouvia a leitura, ergueu a cabeça, trêmula de emoção, não sabendo como expressar a sua gratidão: estava absolvido.

E alcançada a liberdade, José Magro segue logo rumo do local de sua antiga residência. Lá, pressuroso, saudando as vetustas árvores, célere atravessando os extensos carnaubais, fazendo da fraqueza forças. De longe ainda, parece ver a sua casa coberta de palhas de carnaúba e tapada de taipa. Aproxima-se chega á tapera e diz: “Aqui nasci, aqui morrerei!” exclama José Magro seus dias memorando nos vestígios ainda existentes de sua casa. E assim aconteceu consoante ao que se diz: ali mesmo levantou ele, com material idêntico, outra casa, onde passou o resto de sua existência, vivendo de amanho de seu quintal e dos peixes que colhia com tarrafa no rio de sua estremecida terra.

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JORNAL DIÁRIO DO PIAUÍ, 28 DE AGOSTO DE 1913.

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