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Zebrão: o cafetão e vigarista que enganou a polícia

Alguns bandidos passaram para a história policial de Teresina como famigerados assassinos, ladrões, estupradores, latrocidas, etc. Um deles não estava envolvido nestes tipos de crimes; era um rufião porém não se contentou em ser apenas um simples agenciador de mulheres, picareta e torturador. Entrou para o arquivo criminal do Piauí pela impressionante frieza e audácia.

Em 1979 o bandido Milton Sales da Silva, vulgo “Zebrão” ou “Paulo Zebrão” chegou ao cúmulo de se infiltrar entre os policiais, dizendo-se oficial do exército e agente do antigo DOPS e até da Polícia Federal. Segundo os jornais da época deu ordens até para delegado da polícia civil em Teresina.

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ESTE ERA O BANDIDO “ZEBRÃO”. FONTE: JORNAL O DIA.

 Um audacioso vigarista

Com a idade de apenas 23 anos e residente na Av. Dom Severino, no Bairro Jockey, a audácia do facínora era tamanha que conduziu à Central de Flagrantes de Teresina de maneira arbitrária e aleatória três pessoas humildes e mandou prendê-las, acusando-as de roubo, após se dizer autoridade. Isso só no papo, sem se identificar documentalmente como policial. Não satisfeito em havê-las trancafiados, Zebrão voltou no dia seguinte, mandou tirar os três do xadrez, que foram conduzidos à sala de investigação, ao lado da sala do delegado. Ali comandou uma sessão de espancamento contra os detentos, exigindo que confessassem um furto que jamais cometeram.

Os três presos eram: Francisco Carlos Vieira, então com 49 anos, viúvo, camelô, pai de quatro filhos e residente na Avenida Centenário; José Cardoso da Silva, 43 anos, casado e sem filhos e que, impedido de trabalhar por estar doente, mendigava; e Carlos Almir Batista de Souza, então com 34 anos, solteiro, residente no bairro São Cristóvão.

Convicto de que um policial respeitado se destacava pela arrogância e violência, Zebrão entrou em ação devido a sua pose de autoridade ante os seus “colegas” da Central de Flagrantes, então na zona leste da Capital, que nunca imaginaram tratar-se de um vigarista.  Segundo relatos, o facínora deu ordens aos policiais de plantão nos três dias em que frequentou a Central.

Soube-se depois da “casa cair” para Zebrão, que o mesmo há uns dias teria tomado um porre no antigo meretrício da Paissandu em companhia de outro “agente” do DOPS, o meliante Paulo Farias de Sousa. Num fusca, os dois saíram de um cabaré e, ao chegar ao terminal de ônibus da Praça da Bandeira, começaram a efetuar as prisões, brincando perversamente de polícia e  bandido. Eles, os bandidos, estavam travestidos de mocinhos.

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DE UM TRECHO DA PAISSANDU COMO ESTE DE UMA IMAGEM ANTIGA SAÍRAM “ZEBRÃO” E SEU COMPARSA PARA COMETER ARBITRARIEDADES. JORNAL O DIA. 

As prisões ocorreram no dia 06 de março de 1979: o primeiro a ser preso foi o camelô Francisco Carlos Vieira. A vítima contou que foi abordado pelo pilantra que se dizia advogado, tenente do exército e que tinha todo o apoio do diretor do Departamento de Polícia da Capital, Luís Carlos Mousinho para fazer o que quisesse.

O segundo, Carlos Almir Batista de Sousa, vendedor de picolé, foi preso pelo vigarista também no Terminal, enquanto esperava o ônibus que o levaria para o Bairro São Cristóvão.

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TERMINAL DE ÔNIBUS DA PRAÇA DA BANDEIRA EM TERESINA, ONDE DOIS DOS INOCENTES FORAM PRESOS. FONTE: http://tvcanal13.com.br

O último a ser preso foi o Sr. José Cardoso da Silva, um ex-barbeiro obrigado a mendigar em decorrência de doença que o impedia trabalhar. Este não estava no Terminal, mas sim no calçadão da Rua Simplício Mendes, onde dormia ao relento. 

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EM TEMPOS IDOS ZEBRÃO PRENDEU JOSÉ CARDOSO DA SILVA NESTE CALÇADÃO.

Parece que as prisões eram totalmente aleatórias, influenciadas pela cachaça que os “agentes” tomaram...

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ZEBRÃO, O “AGENTE DA LEI”. FONTE: JORNAL O ESTADO.

Começou então a sessão de amedrontamento aos indefesos presos: “Eu já matei três e vou levar vocês para minha fazenda e lá vou matar vocês”, disse a “autoridade”, sempre exaltando sua pretensa posição de superioridade para os trêmulos presos, afirmando inclusive que sua mulher era médica e que trabalhava na Universidade Federal do Piauí. Haja pinga...

Segundo contou posteiormente o camelô Francisco Carlos Vieira, antes de sua prisão, Zebrão tomou um relógio de um rapaz que vendia comida no terminal da praça da bandeira, alegando que o objeto era produto de furto. Na Central de Polícia cinicamente acusou o camelô do roubo.

Naquele dia 06 de março de 1979, estava no comando de plantão na antiga Central de Flagrantes de Teresina (Bairro Santa Vila Maria, zona leste) a Delegacia de Acidentes, através do tenente Ernani Torres, juntamente com os policiais: Comissário Almerito de Sousa Ferro (falecido em 03/05/2010); escrivão: Francisco José B. Silva; investigador: Farias; agentes: Barradas, Júlio Santos, Genésio e Nonato Gomes; motorista policial: José Nunes da Silva.

Quem atendeu o vigarista Zebrão foi o comissário Almerito Ferro, que sequer pediu documentação desta “autoridade”, a qual inclusive se apresentava com o nome falso de Paulo da Silva Leal (daí “Paulo Zebrão”), dizendo-se agente da polícia política DOPS. Entregou ao comissário os três presos, apresentando como “prova de delito” o relógio que um deles (ele próprio) teria roubado no Terminal de ônibus. Parece que o comissário não percebeu também o bafo da “serrana” que o falso policial havia consumido poucas horas antes.

Além do relógio, que pesava na falsa acusação contra Carlos Almir, Zebrão apresentou ao comissário uma navalha encontrada com o mendigo José Cardoso, que antes de adoecer exercia a profissão de barbeiro.

O comissário Almerito Ferro disse ao vigarista que o mesmo poderia levar os objetos roubados para o DOPS onde estaria lotado.  Em seguida, sempre precipitadamente, o comissário redigiu um memorando ordenando ao carcereiro Benedito Reis que trancafiasse os três inocentes.

Perante toda aquela farsa, Zebrão esbanjava “autoridade” e bradava na presença dos presos e dos policiais: Eu não quero mais ver malandro nesta Cidade. Vou prender tudo. Seria cômico se não fosse trágico...

As três pobres vítimas de uma sádica molecagem passaram três dias mofando num imunda cela da Central de Polícia, sem qualquer chance de defesa. O pior é que Zebrão foi visitá-los várias vezes, para espancá-los, insultá-los e praticar toda sorte de humilhações contra eles.

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IMAGEM ILUSTRATIVA. OS TRÊS PRESOS INOCENTES FICARAM NUMA CELA LIGEIRAMENTE PIOR DO QUE ESTA. FONTE: http://g1.globo.com/pi/piaui

Parece incrível que tudo isto tenha acontecido dentro de uma unidade da Polícia Civil, mas quando o vigarista lá chegava, mandava retirar os três humilhados presos da cela, levando-os á sala de investigação onde eram espancados e esculachados sem entenderem a razão. E ainda batia na sineta do delegado, com o que era atendido por um soldado, só para esnobar ante os três presos que era atendido como autoridade.

A farsa é desmascarada

No dia 07 de março de 1979 assumiu o Plantão da Central de Flagrantes a POLINTER. Novamente Zebrão se dirigiu à Central para esnobar seus dotes policialescos entre seus “colegas” e continuar seu trabalho de “investigação” com os pobres detentos. Continuou o suplício e o embuste.

Porém, no dia seguinte, dia 08 de março de 1979, foi a vez do plantão ser exercido pelo 1º DP, através do delegado José Silva Torres. Acabava-se o curto e macabro reinado do vigarista Paulo Zebrão.

Ali o delegado percebeu que havia muita coisa de errado, após uma desconfiança do carcereiro de plantão, que conduziu o falso agente à sua presença.

O delegado Torres, após descobrir toda a trama cruel de Zebrão, notificou o caso no livro de ocorrências, solicitando ao Diretor da Central providências no sentido de indenizar as vítimas pelos danos morais e físicos que sofreram, frisando o descaso e a omissão da Central.

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CINISMO E CARA DE PAU DE ZEBRÃO AO SE PASSAR POR POLICIAL. FONTE: JORNAL O ESTADO.

No seu relatório dirigido ao diretor do DPC, o delgado Torres narrou detalhadamente toda a trama do vigarista, começando pelo momento em que o mesmo foi desmascarado:

Por volta das 23 horas chegou a esta Central de Polícia um elemento que mais tarde fora identificado como sendo Lauro da Silva Leal (nome falso) querendo falar com o carcereiro, a fim de que o mesmo abrisse o xadrez para que ele falasse com três detentos, alegando na oportunidade que era agente da Polícia, lotado no DOPS.

Como se tratava de um elemento estranho, o carcereiro Gedeon Queiróz de Sousa o encaminhou á minha presença e em poucas palavras ficou constatado que ele nunca foi policial em sua existência.

Foi então que o delegado se inteirou da presença dos três presos inocentes nas dependências da Central, das visitas de Zebrão e das sessões de tortura.  Deu voz de prisão ao patife e ordenou uma devassa de suas atividades na Central. 

Segundo o delegado Torres, o vigarista dizia-se tenente do exército, além de advogado, agente do DOPS e da Polícia Federal. E mais: tentou agredir (sem que se saiba a razão) a presa gestante Laura Teixeira de Andrade, que se encontrava recolhida numa das celas da Central, à disposição da Justiça Federal, acusada de participar de uma quadrilha de moedeiros falsos.

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A DETENTA LAURA TEIXEIRA DE ANDRADE ESCAPOU DAS AGRESSÕES DE ZEBRÃO. FONTE JORNAL O DIA.

Na manhã seguinte os três inocentes foram libertados. O delegado Torres enquadrou Zebrão nos crimes Contra a Administração e furto (por haver tomado um relógio).

Indagado pelo delegado o motivo da cruel farsa, já que nada levava em proveito com aquele papel,  o vigarista teve a cara de pau de responder que a razão era sua vontade de ser policial, o que era o seu sonho de muitos anos. Frisou que ainda que numa segunda feira embriagou-se no meretrício da Paissandu, quando resolveu tirar onda de autoridade. Mesmo preso, Zebrão apregoava cinicamente a vontade de um dia ser policial, manifestando sua intenção de fazer o primeiro concurso para a Polícia que surgisse, alegando que possuía o grau de instrução Científico. Quando exprimiu na presença dos policiais que queria ser um deles, um agente comentou com ironia: E na realidade você já é um dos nossos, pois está preso.

Uma polícia ineficiente

Na época em que se descobriu a farsa do embusteiro houve muitas críticas a Polícia Civil do Estado. Dizem que Zebrão serviu para mostrar o péssimo aparelhamento intelectual da nossa polícia naquela época, pois o meliante já era bastante conhecido em Teresina como rufião, e ainda assim, sem nenhuma documentação, mandou e instalou seu reinado de terror na Central de Flagrantes.  Ressalte-se que o embusteiro havia contatado com vários policiais e com dois carcereiros diferentes. Somente quando o terceiro carcereiro, do terceiro plantão, Gedeon Queiroz de Sousa, mais experiente do que os anteriores desconfiou da autoridade, o conduzindo ao delegado Torres, a farsa teve fim.

O Cafetão Zebrão

A polícia descobriu então a atividade principal do meliante: cafetão ou proxeneta ou rufião, ou seja, agenciador de mulheres. Zebrão intermediava encontro entre jovens garotas e homens maduros, de alto poder aquisitivo, geralmente casados. O bandido tinha como base de aliciamento das garotas as cercanias da Igreja do Amparo, na Praça Rio Branco e a vizinha Praça da Bandeira.

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UM DOS TRECHOS DA PRAÇA RIO BRANCO ONDE ZEBRÃO AGIA, EM FOTO DA MESMA ÉPOCA. FONTE: JORNAL O ESTADO.

No 1º DP Zebrão contou a um repórter do jornal O ESTADO que tinha uma rede de garotas de programa. Teria dito:

Algumas delas são meninas de famílias ricas e as pessoas a quem eu entrego essas pessoas são homens de boas condições financeiras.

Entretanto, a reportagem daquele jornal também apurou que não eram apenas garotas de famílias ricas que eram exploradas pelo cafetão. Moças de famílias pobres, vindas do interior à procura de emprego eram também iludidas e aliciadas por Zebrão para a prostituição.

Localmente, na Capital, suas maiores vítimas eram as jovens e carentes comerciárias. Confessou Zebrão:

As minhas garotas fazem ponto na Praça Rio Branco. Ali eu as encontro e digo com quem elas têm que sair.

Nos hotéis de Teresina, de preferencia nos de maior porte, Zebrão se infiltrava, fazia amizade com os funcionários e oferecia garotas aos hóspedes. Chegou a ser expulso de um grande hotel da Praça Rio Branco.

Aos policiais que o prenderam, o proxeneta se gabava de conhecer muitas pessoas influentes do Piauí e que logo sairia da cadeia por interferência delas. Dizem que ele chegou a pedir que avisassem a um alto funcionário da Secretaria de Segurança sobre sua situação de detido.

Com a prisão de Zebrão, assumiu o papel de rei da cafetinagem da Praça Rio Branco seu grande rival, um homossexual conhecido como Zezinho Lamparina, um rufião de inteligência muito restrita e sem a lábia de Zebrão, a quem devotava grande inveja.

Zebrão é fuzilado  

Inexplicavelmente, mesmo com crimes afiançáveis, Zebrão foi enviado para o presídio da cidade de Picos, porção central do Estado, destinado a presos altamente perigosos. A unidade prisional para onde o farsante foi enviado possuía exatamente naquela época uma fama de exterminador de pretensos fugitivos. 

Como o meliante arquitetou uma fuga em meados de março e foi descoberto, o diretor da Penitenciária, o sub-tenente José Araújo Filho mandou que o recolhessem a uma solitária. Depois o militar foi conversar com o rufião e lhe explicou que não deveria mais tentar fugir, pois seus soldados tinham a ordem de atirar em caso de tentativa.

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PRESÍDIO PARA ONDE ZEBRÃO FOI LEVADO, EM PICOS. FONTE: www.piauiemfoco.com.br.

Zebrão fingiu atender ao sub-tenente e prometeu que não mais tentaria fugir. Muito tranquilo, o militar mandou retirá-lo da solitária. Porém, no dia seguinte, uma segunda feira, almoçou rápido, por volta do meio dia e recolheu-se a sua cela onde trocou a bermuda por uma calça. Aproveitando o pouco movimento do horário de refeição, Paulo Zebrão, como era conhecido, teria surpreendido a sentinela do Posto 02, PM Francisco José de Sousa, tentando tomar-lhe o fuzil para fugir. Zebrão teria puxado o policial pela perna, culminando a luta corporal com sua morte.

Dizem que nenhum detento poderia se aproximar cinco metros do muro da penitenciária, sob pena de ser fuzilado. Pois segundo o inquérito policial militar, Zebrão não só ultrapassou esta zona proibida como também invadiu o posto da sentinela, travando com ele uma violenta luta corporal, tentando tomar-lhe a arma. Sentindo que perderia a arma para o detento, o policial disparou e atingiu Zebrão, que cambaleou até sua cela e caiu morto. Segundo registrou o comandante da guarda da Penitenciária, sargento Campos, o fuzil do soldado ficou manchado com o zangue de Zebrão, sendo inclusive fotografado pelas autoridades. O soldado foi detido e preso.

O problema é que ninguém viu nada disso. A testemunha mais próxima, cujo nome foi omitido nos jornais da época, disse no inquérito policial militar que ouviu apenas o tiro e que correu para o local, onde viu o soldado Francisco José de Sousa com o fuzil nas mãos, enquanto Zebrão agonizava. Não sabemos se esta testemunha era um detento, um policial ou um funcionário civil.

Em menos de seis meses do ano de 1978 dois outros detentos foram mortos por tiros de fuzil na Penitenciária de Picos.  A ordem do estabelecimento seria para atirar para matar no caso de tentativa de fuga dos presidiários. A punição seria também severa para os policiais, no caso de fuga bem sucedida. Essa teria sido uma declaração emitida pela própria Secretaria de Segurança do Estado do Piauí, referindo-se a morte do rufião.  

O fuzilamento do embusteiro teve ampla repercussão na imprensa, pois havia o boato de que poderia ter sido um assassinato a mando de autoridades, como uma queima de arquivo. O procurador da República no Piauí, o mineiro Sammir Haddad (n. 1938) se encarregou de chefiar as investigações, principalmente depois que soube extraoficialmente que os soldados da Penitenciária, quando pretendiam eliminar algum detento, promoviam um jogo de futebol para os mesmos e quando a bola caía do outro lado do muro mandavam aquele marcado para morrer buscar a dita bola. Em obediência o detento corria para buscar a bola ocasião em que era fuzilado. Não foi o caso de Zebrão, fuzilado longe do campo de futebol.

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O EX-PROCURADOR DA REPÚBLICA SAMMIR HADDAD. FONTE: http://cidadeverde.com

O procurador se dirigiu ao Presídio em picos acompanhado do grande perito Delfino Vital da Cunha Araújo (falecido em 2013, aos 74 anos), então diretor do Instituto de Criminalística do Piauí, no intuito de verificar as circunstâncias da morte de Zebrão e esclarecer se ocorreu durante uma luta corporal com um soldado ou se foi um fuzilamento sumário. Vital Araújo foi o maior perito da história criminalística do Piauí, com mais de 50 anos de carreira, sendo que suas perícias eram quase infalíveis.

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VITAL ARAÚJO PERICIOU O AMBIENTE E CIRCUNSTÂNCIAS EM QUE ZEBRÃO MORREU. FONTE: www.180graus.com.

Examinando in loco as circunstâncias e os testemunhos, o perito concluiu que não houve um assassinato premeditado como muitos supunham, mas uma violenta tentativa de fuga que culminou em óbito.  Claro que o ambiente em que o proxeneta morreu estava sob o controle da PM...

Um ano depois da morte de Zebrão, em 26 de março de 1980, o soldado PM Francisco José de Sousa, que matou o cafetão, foi absolvido por unanimidade pela Justiça Militar.

Ficou supostamente comprovado que o PM agiu no cumprimento do dever e ainda em legítima defesa, pois o detento tentara lhe tomar o fuzil e em seguida travou violenta luta corporal com ele, após o que foi abatido com um tiro no pulmão.

O policial Francisco José foi julgado à revelia, pois fugiu tão logo foi solto. Isso porque, mesmo havendo supostas provas de que agiu no estrito cumprimento do dever, ficou com medo de comparecer ao julgamento e também com receio de infundado de vingança por parte de familiares de Zebrão. Porém seria acusado de um crime: deserção, pois logo após seu homicídio fugiria, infringindo as regras militares. 

Nem mesmo o fato de ter agido em legítima defesa serviu para que os amigos o convencessem a não fugir. Dizem que após o fuzilamento o soldado passou a ter perturbações mentais.

Queima de arquivo?

Os jornais da época estamparam que a população da cidade de Picos ficou revoltada com o fuzilamento de Zebrão, o que para muita gente foi mais um homicídio premeditado no estabelecimento prisional.  Era o terceiro homicídio de presos em seis meses durante supostas tentativas de fuga. Compreensível. Mas parece que houve omissão de manifestações sobre o sofrimento dos três inocentes torturados na Central em Teresina, pelo o que a Secretaria de Segurança também teria que ser responsabilizada.

Embora os indícios ou mesmo provas apontem para uma morte casual, muita gente acredita que o cafetão estava marcado para morrer. Levantou-se uma polêmica, pois crimes como agenciamento de prostituição, identidade falsa e furto são afiançáveis.  Porém o embusteiro inexplicavelmente, sem ser julgado, foi enviado diretamente para uma penitenciária reservada a marginais de alta periculosidade. Ressalte-se que contra Zebrão nunca recaíram acusações como homicídio, assalto a mão armada, estupro ou tráfico de drogas. Aliás, o mesmo não tinha sequer passagem pela Polícia até ser desmascarado pelo Delegado Torres. Portanto seria réu primário.

O próprio diretor do Departamento de polícia da Capital, Luís Carlos Mousinho e o diretor da Divisão de Presídios, Antenor Almeida, afirmaram que os delitos cometidos por Zebrão eram afiançáveis.  Porém, ninguém da Secretaria explicou naquela época porque o mesmo fora transferido para a penitenciária de Picos. O Procurador da República Sammir Haddad enumerou entre os questionamentos sobre o fuzilamento, a razão do envio de Zebrão para uma penitenciária para presos perigosos, sendo que o detento não apresentava características de alta periculosidade.

Segundo alguns comentários, se presumia que o detento fosse homossexual, não tendo sido aceito no Presídio Agrícola de Altos, vizinho a Teresina, para onde eram levados presos menos perigosos. A explicação era pouco convincente e se confrontava com os direitos legais do preso.  O certo é que houve uma corrente unânime em Teresina e Picos de que Paulo Zebrão não era tão perigoso assim a ponto de ser transferido para aquela Penitenciária de Picos. Ressalte-se que na época não existia as casas de custódia e de albergados.

Também se estranhou o fato de que quando Zebrão foi morto somente o soldado Sousa se encontrava de vigilância, levando alguns a crer que tudo fosse facilitado para que o detento chegasse até a guarita onde estava o militar.

Dizem alguns que o agenciador de garotas foi morto porque sabia demais e poderia complicar a vida de muitos figurões da sociedade piauiense, geralmente casados, envolvidos com a prostituição. O próprio proxeneta se gabava de conhecer muita gente importante. Teriam alguém se preocupado com o fato de que o detento, sob pressão de um presídio, Zebrão se sentiria abandonado e abriria o bico?.

O fato é que todos estranharam que Paulo Zebrão tentasse fugir de uma das penitenciárias mais seguras do Estado. Além do que, ele, muito arguto, perspicaz e inteligente com certeza sabia que por seus delitos não passaria muitos meses na prisão.

Dois companheiros de cela de Zebrão, os detentos Francisco de Oliveira e Ivan da Cruz testemunharam que o colega havia dito que sairia logo da penitenciária nem que fosse morto.  E ainda que quando tentaram remover esta ideia do cafetão, este teria se zangado com os dois detentos. Será que Zebrão disse mesmo que iria fugir ou os detentos foram pressionados a dar este testemunho?

O certo é que o agenciador de mulheres sabia de muitos segredos de importantes pessoas da sociedade teresinense e de cidades do interior. E é por isso que muita gente não acreditou na versão oficial da Polícia, uma vez que seria quase impossível uma fuga, em plena luz do dia, da Penitenciária de Picos. Pelo menos naquela época, segundo dizem.

O arquivo secreto de Zebrão

Na época do fuzilamento correu a notícia de que estaria em poder de um anônimo parente de Zebrão um fichário contendo nomes de garotas de programa e de importantes figurões da sociedade piauiense.  Sem dúvida mesmo que fosse boato, seria suficiente para deixar muita gente importante sem sono.

A lista incluiria deputados, prefeitos, funcionários graduados do Governo, empresários, viajantes de outros estados que aqui se hospedavam nos melhores hotéis, etc.

Seria uma espécie de arquivo secreto, bem organizado, com índice, relação catalogada das garotas e dos figurões e ainda uma espécie de livro caixa, mostrando o movimento de uma suposta organização comandada pelo detento fuzilado no Presídio de Picos.

Este suposto parente de Zebrão, nunca identificado, disse em contato telefônico com o jornal teresinense O ESTADO que seu familiar teria utilizado o seguinte método, na sua atividade de lenocínio: marcava o dia de atuação do contato entre os interessados. Nesta data, ele registrava, ao sair, o seguinte percurso: Atuação na Praça da Bandeira, num raio de ação compreendendo a Assembleia Legislativa, Igreja do Amparo, imediações do Luxor, Prefeitura e casas comerciais, do Centro até os confortáveis gabinetes do Governo. 

Na Assembleia, ele teria livre acesso no gabinete de muitos parlamentares, segundo dizem.

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A PRAÇA DA BANDEIRA EM IMAGEM DOS ANOS 1980. AQUI, VIZINHO A PRAÇA RIO BRANCO TAMBÉM ERA DOMÍNIO DE ZEBRÃO. FONTE: CADERNOS DE TERESINA - Nº 6 – 1988.

Além disso, segundo existiria no fichário, Zebrão anotava até o nome das garotas disponíveis para aquele dia, bem como catalogava os clientes e até mesmo a importância recebida, a que ele chamava de honorários. Usava para isso um livro caixa, de entrada e saída do dinheiro.

Nesse fichário haveria preços estabelecidos pelo proxeneta. As importâncias variavam de Cr$ 50,00 a Cr$ 500,00. Zebrão era tão detalhista que teria citado o caso de um deputado que contratou seus “serviços” e, estando em falta de seu talão de cheques, ficou devendo os préstimos sexuais. 

Zebrão era o patrão, o empregado, o agenciador e o contador de sua organização de um homem só. E com ele morreu sua organização de lenocínio.

Epílogo

Embora fosse piauiense e residisse há muito tempo em Teresina, não apareceu ninguém da família de Paulo Zebrão na Secretaria de Segurança para se inteirar de detalhes de sua morte. Talvez sentissem vergonha do rufianismo do familiar. Também em Picos, onde foi enterrado ás custas da Polícia, não compareceu nenhum parente.

Também nunca se soube mais detalhes do suposto fichário com os nomes dos envolvidos na prostituição. Se é que existia mesmo.

Quanto ao seu companheiro de maloca do cabaré às prisões dos inocentes, parede que só participou da palhaçada no primeiro dia, sob intenso efeito da marvada...

A morte do cafetão nunca foi satisfatoriamente explicada, mas caiu no mais completo esquecimento.  Talvez para alívio de muitos daquela época...

Se estivesse vivo hoje Zebrão teria cerca de 58 anos. Ironia do destino, talvez se não tivesse a fantasia ridícula de brincar de policial, possivelmente fosse hoje um empresário bem sucedido no ramo do lenocínio, um rico e concorrente direto de uma famosa casa de tolerância de Teresina, famosa no Brasil inteiro, comandada por uma idosa madame...

A propósito, o porquê do apelido Zebrão de Milton Sales da Silva nos é desconhecido. Mas para ele o final precoce de sua vida foi fatalmente uma zebra...

Fontes:

Jornal O DIA, Teresina, edições de: 18 de março de 1979; 27 de março de 1980; 27 de agosto de 1982.

Jornal O ESTADO. Teresina, edições de: 28 de março de 1979; 29 de março de 1979; 31 de março de 1979; 01-02 de Abril de 1979; 08 de junho de 1979; 30 de setembro de 1979.

 
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