Os castelinhos: a exuberante arquitetura antiga de Piracuruca

Piracuruca, histórica cidade localizada no norte do Piauí, possui um dos mais ricos patrimônios arquitetônicos do Piauí. Segundo IBGE, no começo do século XVIII, os irmãos Manuel e José Dantas Corrêa, desbravando os sertões piauienses, fundaram nas terras do atual município de Piracuruca diversas fazendas de criação de gado. Certa vez, aprisionados pelos índios quiriris, fizeram promessa à N. S.ª do Carmo de no local construírem um templo consagrado à Virgem, caso escapassem do cativeiro. Obtida a graça, deram início em 1718 à construção do majestoso templo, em torno do qual surgiu uma próspera povoação.

Distrito criado com a denominação de Piracuruca, anterior a 1760.

Elevado à categoria de município de Piracuruca, pelo distrito de 06-071832, desmembrado de Parnaíba. Sede na antiga vila de Piracuruca. Constituído do distrito sede. Instalado em 23-12-1832.

Elevado à condição de cidade, pela lei estadual nº 1, de 29-8-12-1889.

Segundo Gerson Meneses a partir do dia 26 de janeiro de 2012 a cidade de Piracuruca, no norte do estado do Piauí, passou a fazer parte da lista do Patrimônio Cultural Brasileiro, o IPHAN – (Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional) que reconheceu oficialmente, através do seu Conselho Consultivo do Patrimônio Cultural, que a cidade compõe uma rede que revela e valoriza a riqueza e a diversidade do patrimônio cultural no estado do Piauí, assim, o centro histórico da cidade passou a ser tombado.

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DEMARCAÇÃO DA ÁREA TOMBADA NO CENTRO DE PIRACURUCA-PI. FONTE: GERSON MENESES.

Dentre as dezenas de edificações antigas que se destacam na urbe piracuruquense, duas nos chamam a atenção em particular, pela peculiaridade de sua arquitetura. A principal é o que os moradores chamam de “castelinho”, edificado na Praça José Brito Magalhães. Na verdade, um palacete exuberante, resultante do esplendoroso ciclo da carnaúba que o Município viveu na primeira metade do século XX, onde comerciantes e exportadores construíam mansões de cunho arrojado para a época.  

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IMAGEM ANTIGA DO CASTELINHO. FONTE: FUNDAC.

O palacete chamado “castelinho” foi construído por um grande comerciante e exportador de cera de carnaúba da época, um líder político e ex-prefeito de Piracuruca, Luís de Moraes Meneses, ou Lucas Meneses.  Exerceu o cargo em duas oportunidades, de 1934 a 1937 e de 1937 a 1939.

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SR LUÍS MORAES MENESES OU LUCAS MENESES. FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA, NOS FOI CEDIDA POR THIAGO ALVES.

 A edificação do panorâmico casarão teve início em 1937 e foi concluída em 1939. 

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O CASARÃO EM CONSTRUÇÃO, NO ANO DE 1937. FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA. AGRADECIMENTOS AO PIRACURUQUENSE THIAGO ALVES PELO ENVIO DA IMAGEM.

Finalmente, em 1939 ficou pronto o bangalô do Sr. Lucas Meneses, causando admiração por sua arquitetura eclética e arrojada até a outros milionários da Cidade.

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EM 1939 O “CASTELINHO” ESTÁ PRONTO. FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA, CEDIDA POR THIAGO ALVES.

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OUTRA IMAGEM ANTIGA DO CASTELINHO DE PIRACURUCA. FOTO DE AUTORIA DESCONHECIDA. ACERVO: CASA DE CULTURA DE PIRACURUCA.

Após a conclusão do casarão, Lucas Menezes viajou para o Rio de Janeiro onde foi comprar os móveis pra sua residência, mas infelizmente não chegou a  morar nela por conta de seu falecimento, aos 47 anos de idade, vítima de acidente automobilístico na Avenida Beira Mar em frente à Rua Ferreira Vianna, no Rio de Janeiro em 22 de agosto de 1939.

Lucas Menezes era casado com Carlota de Moraes Menezes, com quem teve dois filhos, Antônio José Theóphilo de Moraes Brito e Francy de Brito Menezes. Na época de seu falecimento seus dois filhos eram menores de idade. Ainda hoje o casarão mantém seu aspecto original, pertencendo ainda à mesma família. É uma arquitetura que tem um inestimável valor histórico e muito atraente de se contemplar. 

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O ENTERRO DO SR. LUCAS EM 1939 COMOVEU A CIDADE DE PIRACURUCA. IMAGEM DE ORIGEM DESCONHECIDA, CEDIDA POR THIAGO ALVES.

A imagem abaixo, já de 2014, mostra que a arquitetura original foi agradavelmente preservada. A exceção foi a substituição do muro com colunas e madeira na parte superior por gradil de ferro.

Observam-se na construção, de estilo eclético alguns elementos muito belos. A exuberante torre dômica (abóboda ogival), com domo em escamas, tendo um pináculo (elemento da arquitetura gótica) ao alto salta aos olhos. Lembra uma cúpula mourisca ou mesmo a Cúpula da Grande Sinagoga de Florença (Itália). A torre possui duas janelas superiores geminadas, de folha simples e em arco pleno, com bandeiras em persiana contornadas por cercaduras em massa, separadas por uma coluna espiralada. As janelas são alongadas, possuem caixilhos envidraçados na parte superior e persianas na parte inferior. 

Na parte inferior da torre uma janela com folha dupla e características iguais as superiores, exceto que se dispõe em verga reta. Ainda na torre há uma porta de verga reta, bandeira de persianas, caixilhos envidraçados na parte central, novamente persianas e parte maciça, provavelmente com almofadas.

A porta principal da casa, sob um alpendre, ao lado da porta da torre, possui as mesmas características daquela  acima descrita. Na parte superior, uma janela de duas folhas, com as mesmas características das outras. O alpendre é formado entre esta janela, a torre e o corpo frontal da casa.

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ALGUNS DETALHES DA PORÇÃO DIREITA DO PALACETE: O DOMO ESCAMOSO (1), O PINÁCULO (2), AS JANELAS GEMINADAS EM ARCO PLENO (3), A JANELA INFERIOR EM VERGA RETA (4), A PORTA DA TORRE (5), A PORTA PRINCIPAL (6), A JANELA ENTRE A TORRE E O CORPO PRINCIPAL DO PALACETE (7), O TELHADO DO ALPENDRE (8) E A COLUNA ESTILO GREGO QUE SUSTENTA O ALPENDRE (9).

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DETALHE PARCIAL DA IMAGEM ANTERIOR. OBSERVEM NO LADO DIREITO DA IMAGEM, POR TRÁS DA TORRE, A PRESENÇA DE UMA VARANDA COM GUARDA CORPO VAZADO.

No lado da fachada frontal, observa-se sob num telhado estilo chalé, muito fechado, a presença de janelas geminadas em arco pleno, inclusive com a coluna espiralada, em tudo igual às janelas da torre. Há ainda no pavimento superior, lado direito da fachada, uma janela em folha dupla, com as mesmas feições das demais.

No pavimento inferior, três janelas, todas em verga reta, sendo a central de folha dupla, e as laterais de folha simples. As características decorativas da janela com cercaduras em massa são as mesmas das outras. A fachada frontal tem marcação horizontal que define a linha de piso do pavimento superior.

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DETALHES DO LADO ESQUERDO DO CASTELINHO. TELHADO DE DUAS ÁGUAS MUITO ÍNGREME (1), JANELAS DUPLAS IGUAIS AS DA TORRE (2), JANELA DE FOLHA DUPLA (3), TRÊS JANELAS DO PAVIMENTO INFERIOR (4), A VARANDA SUPERIOR (5), MARCAÇÃO HORIZONTAL QUE SEPARA OS DOIS PISOS (6).

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VISTA FRONTAL MOSTRANDO A IMPONÊNCIA DA EDIFICAÇÃO.

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DETALHE DA FACHADA LATERAL ESQUERDA DO EDIFÍCIO. VÁRIAS JANELAS EM VERGA RETA, COM ELEMENTOS DECORATIVOS SEMELHANTES ÀS OUTRAS. 

É gratificante observar a extraordinária conservação do palacete de Piracuruca, zelado aos extremos, praticamente sem modificações ao longo de mais de 70 anos.

O mais curioso é que existe um “mini-castelinho” na mesma Piracuruca, de dimensões bem mais modestas, mas de estilo arquitetônico com algum elemento semelhante, pelo menos no tocante ao domo escamoso com pináculo. Fica na principal Praça da Cidade, a Irmãos Dantas, próximo à igreja-Matriz de Nossa Senhora do Carmo. Deste, porém, não conseguimos nenhuma informação histórica sobre sua edificação.

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OUTRO INTERESSANTE “CASTELINHO”, COM O MESMO TIPO DE DOMO, PORÉM EM TUDO DE MENORES DIMENSÕES QUE O ANTERIOR.

Este possui um vistoso frontão triangular, decorado com elementos geométricos em relevo (triangulos sobrepostos), sendo encimado por um pináculo esculpido com esmero em sua base. A janela frontal é em verga reta, apresentando folha dupla, com uma persiana fixa ao meio, caixilhos com vitral na parte superior e persiana na inferior, e ainda bandeiras envidraçadas. É totalmente emoldurada em relevo decorativo. Observa-se ainda um alpendre do lado esquerdo, com coluna, com guarda corpo vazado com balaústres. Outro alpendre, do lado direito sustenta o domo.

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DOMO COM PINÁCULO (1), DECORAÇÃO TRIANGULAR DO FRONTÃO TAMBÉM TRIANGULAR (2), PINÁCULO QUE ENCIMA O FRONTÃO (3), ALPENDRE ESQUERDO (4); JANELA COM BANDEIRA ENVIDRAÇADA (5), ALPENDRE DIREITO, SOBRE O QUAL REPOUSA O DOMO (6).

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DETALHE DA DECORAÇÃO DO FRONTÃO E O PINÁCULO ARTISTICAMENTE ESCULPIDO.

Ao contrário do castelinho maior, neste caso o domo não coroa uma torre, mas apenas decora o alpendre direito da edificação. 

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PELA VISÃO LATERAL DIREITA DA EDIFICAÇÃO É POSSÍVEL OBSERVAR QUE O DOMO É UM ELEMENTO DECORATIVO DO ALPENDRE, NÃO COROANDO NENHUMA TORRE, COMO SE OBSERVA NO CASTELINHO.

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ESTA FOTO FOI TIRADA POUCOS MESES EM RELAÇÃO ÀS ANTERIORES. OBSERVEM QUE NÃO HAVIA GRADE NA JANELA FRONTAL.

No caso deste segundo castelinho, a única coisa que tem em comum com o primeiro é o domo com pináculo, faltando, porém a torre que caracteriza o palacete do Sr. Lucas. 

Supomos que ou o mesmo arquiteto ou construtor que tenha construído o palacete do Sr. Lucas Meneses tenha construído também a edificação da Praça Irmãos Dantas ou seu antigo proprietário se empolgou com aquele magnífico domo, construindo um para si em sua residência.

Em ambos os casos louvemos que estas maravilhas arquitetônicas tenham sido preservadas e estejam tombadas para as gerações posteriores enaltecerem o passado glorioso de Piracuruca.

O autor desta matéria agradece ao Piracuruquense Thiago Alves não só pela cessão de algumas das imagens, mas também pelas informações contidas no livro Remexendo o Baú, da autora Maria do Carmo Fortes Britto. 

 

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