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A misteriosa fazenda Serra Negra em Aroazes

A misteriosa fazenda Serra Negra em Aroazes

Em outubro de 2004 tivemos a calorosa oportunidade de conhecer a famosa e misteriosa fazenda Serra Negra, localizada a 200 quilômetros da capital Teresina, na porção centro-norte do Estado. O local dista menos de 30 quilômetros da sede do município de Aroazes por estrada carroçável.

Hoje o imóvel faz parte de um mega-latifúndio do poderoso grupo empresarial cearense Edson Queiroz, com o nome de Esperança Agropecuária Ltda. Com cerca de 198.000 hectares abrangendo terras dos municípios de Aroazes, Valença do Piauí, Santa Cruz dos Milagres, Pimenteiras e São Miguel do Tapuio. Ali a atividade principal da empresa é a pecuária, com 32.000 mil vacas reprodutoras, 5.500 caprinos e ovinos, além de cavalos, jumentos e burros.  Há também milhares de hectares de cajueiros e 1.200 colméias.

Há também plantações de cana-de-açúcar e sorgo. Uma extensa área destinada á preservação ambiental abriga animais silvestres da região. Alguns afloramentos rochosos areníticos abrigam pinturas e gravuras rupestres multimilenares.

A região é privilegiada em termo de umidade. Além de imensos açudes, é cortada por rios perenes, como o Sambito e o período chuvoso é um tanto generoso, não ocorrendo ali agravantes secas. 

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IMAGEM GERAL DO LATIFÚNDIO, VENDO-SE AO FUNDO A CASA SECULAR DA FAZENDA.

O antigo casarão da fazenda se destaca numa suave colina da caatinga, com uma vista panorâmica dali nos 360 graus do horizonte. A situação é estratégica e providencial, principalmente para a época em que foi construído, meados do século XVIII. Inimigos políticos, hordas de indígenas bravios, escravos rebelados ou cangaceiros estavam onipresentes nos sertões do Piauí. Daí o posicionamento providencialmente estratégico, já que Luís Carlos Serra Negra seria o homem mais temido e perigoso de toda a Capitania, segundo as tradições. Sem dúvida, uma época muito difícil, de um sertão fora-da-lei. Dali seu proprietário, Luís Carlos Abreu de Bacelar (1751?-1811/1815?) o temido e semi-lendário Serra Negra, poderia contemplar festivamente seus amigos ou comitivas de políticos, tropeiros, parentes e fazendeiros se aproximando. Ou, talvez pela facilidade visual de discernir os movimentos suspeitos nas cercanias, se preparar para eventuais e desagradáveis surpresas de seus desafetos, os quais deveriam ser muitos.

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A CASA-DE-FAZENDA DO SERRA NEGRA

As casas dos empregados, vaqueiros e agregados bem como as senzalas, todas paupérrimas choças de palha, taipa e adobe, há muito tempo viraram pó. Também parece não haver mais vestígios de moendas ou casas-de-farinha. A inexorável ação do tempo, aliada ao descuido dos sucessivos moradores ou descendentes foram os responsáveis por seus desaparecimentos. 

Luís Carlos Serra Negra, homem mais rico e poderoso da Capitania do Piauí por volta de 1.800, chegando a fazer parte da Junta de Governo, possuía muitos escravos e era famosa a sua crueldade com os cativos, até por motivos fúteis mandava açoitar ou matar. Pelo menos é o que dizem as tradições nebulosas. A História mesmo é confusa sobre ele.

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TRONCO ONDE ERAM PRESOS E SUPLICIADOS OS ESCRAVOS REBELDES, HOJE NO ACERVO DO MUSEU DO PIAUÍ.

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INSTRUMENTOS DE FERRO PARA SUPLICIAR ESCRAVOS. NA ETIQUETA ESTÁ ESCRITO: “INSTRUMENTOS DE SUPLÍCIO NA TORTURA E CASTIGO DE ESCRAVOS. FAZENDA SERRA NEGRA. HOJE NO ACERVO DO MUSEU DO PIAUÍ.

A casa-de-fazenda da Fazenda Serra Negra é aquela típica moradia dos antigos curraleiros do Piauí. Retangular, não tinha o fausto e a magnificência das casas-grandes dos potentados usineiros de cana-de-açúcar da Zona da Mata Nordestina e nem dos proprietários de fabulosas minas de Ouro Preto, Diamantina e Cuiabá. Refletiam apenas a razoável prosperidade de alguns privilegiados fazendeiros de gado bovino do sertão nordestino. Poderosos e ricos para os padrões sertanejos.  

Vejamos o que nos diz a respeito o escritor piauiense Wilson Brandão (n.1960):

A magnificência da casa-grande de engenho, traço característico de uma economia opulenta e de uma vida social ativa, não encontra réplica na sobriedade da casa-de-telha da fazenda. Por outro lado, os interiores da primeira, que encantaram viajantes ilustres, contrastam com a singeleza dos interiores da casa-de-telha. Todavia, em um ponto ambas se igualam: na força e no poder econômico, social e político que têm, como representações da aristocracia rural do litoral agrário e do sertão.

Sem dúvida, o poder e a força do nosso latifundiário refletiam-se muito mais no cunho social e político do que no econômico, pelo menos em relação aos grandes latifundiários de plantations de cana-de-açúcar, tabaco e algodão de outras plagas do Brasil Antigo.

A frente da casa-de-fazenda da Serra Negra é relativamente majestosa, avarandada, com paredes muito espessas, totalmente compostas por enormes blocos de pedras esquadriadas revestidas com argamassa. Seu telhado com enormes telhas são sustentado por vigas e ripas de carnaúba e são de quatro águas. Sustentam sua estrutura colunas quadrangulares colossais. Os compartimentos são agradavelmente espaçosos, como de regra naquele tipo de casarão.

A estrutura de madeira é arrojada e de uma solidez impressionante nas traves, ripas e caibros que sustentam o telhado. Destacam-se ainda enormes portas e janelas de madeira maciça, com ferrolhos e dobradiças de ferro fundido, etc.

O casarão do Serra Negra casa possui quatorze cômodos e estruturalmente apresenta paredes em pedra com largura de um metro. 

A espessura das paredes é algo impressionante; como dissemos, ultrapassa um metro. O interior é um tanto penumbroso, sem muita claridade. Os aposentos, cujas entradas estão voltadas para um vão interno, possuem passagens de ar através de gradeados de madeira entrelaçadas. A ambientação colonial toma sutilmente conta do ambiente, levando o visitante a se deslocar no tempo por mais de duzentos anos. Isso mesmo embora o espaço esteja tomado atualmente por utensílios modernos de moradores da empresa proprietária do casarão. Impressiona pela solidez e relativa suntuosidade, levando em conta a importância que hoje tem o sertão para moradias tão arquitetadas. Infelizmente o estado de conservação do casarão hoje é bem aquém do que durante a nossa visita em 2004.

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O INTERIOR JÁ BASTANTE DESGASTADO DO CASARÃO. IMAGEM DO ENDEREÇO HTTP://BLOGS.ESTADAO.COM.BR/BLOG-DA-GAROA/CASARAO-DA-SERRA-NEGRA-DO-SECULO-18-AMEACADO-DE-DESAPARECER-NO-INTERIOR-DO-PIAUI/

Um dos cômodos internos é uma capela, disposição corriqueira nas antigas casas de fazenda. O pequeno templo era imprescindível naquelas solidões rurais da época colonial. Ali seus proprietários e circunvizinhos mais desfavorecidos oravam diariamente. Os templos das vilas geralmente localizavam-se muito longe para o fervor religioso dos fazendeiros e agregados. Daí a importância das capelinhas das fazendas. Vez por outra também ali se celebrava cerimônias como crismas, batizados, e casamentos. E, são claro, os habituais e tristes velórios.

Está postada solenemente no retábulo do altar a pequena e sacra imagem de nossa Senhora de Santana. É original e da antiga época do Luís Carlos Serra Negra, segundo nos informaram taxativamente os moradores. Teria, pois, mais de 200 anos. Aliás, sobre a presença da imagem da Madona na capela da fazenda corre uma curiosa história. É mais uma de natureza sobrenatural sobre o misterioso Luís Carlos Bacelar.

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RETÁBULO DA CAPELA COM A IMAGEM DE N.S. DA SANTANA

Dizem que uma escrava negra teria desagradado seu violento amo. Isso parece corriqueiro na vida ou na lenda do potentado... Se isso era sinônimo de morte ou conspiração para pessoas ricas que ousavam enfrentar o poderoso, imaginem para uma simples mercadoria viva. Possesso, o magnata rural teria mandado jogar a pobre mulher no seu famoso curral, onde criava suas afeiçoadas onças, alimentadas alternadamente com carne humana e de animais. A tradição reza que, vez por outra, ele mandava atirar ali seus desafetos. É uma das características lendárias do latifundiário. Seria uma mini-arena romana em plena caatinga. E o imperador sem Senado era Luís Carlos. O cristão seria qualquer um; bastava desagradar o Serra Negra. Mas isso é o que diz a tradição... 

Pois bem! Atirada impiedosamente a trêmula negra aos animais selvagens no curral, no outro dia o fazendeiro foi ao local ver o que restou da escrava que tanto lhes desagravara. Restos de ossos, rasgos de carnes, salpicos de sangue e farrapos de seus pobres trajes, talvez... Qual não foi o seu espanto ao observar que não só a mulher não só não fora despedaçada pelas onças, mas como acariciava docemente as feras, tal qual o episódio bíblico.

Refeito do susto, o rico fazendeiro mandou vir à sua presença a  abençoada escrava. Indagado como pôde lhe ocorrer tamanho portento, ela lhe explicou que, ao saber que iria ser jogada às feras, fez uma prece a Nossa Senhora de Santana, o que resultou miraculosamente na mansidão dos felinos e em sua salvação.

Impressionado, Bacelar, que, apesar de sua crueldade, era fiel e fervoroso católico, fez vir de Portugal uma imagem daquela santa, tornando-a padroeira de sua fazenda. Talvez acreditasse que a mesma poderia lhe ser útil em suas tramas e ardis, lhe reservando um bom espaço na pós-morte... Quem sabe também, movido pela fé inabalável, teria perdoado a escrava... Mas, tudo é só o que  dizem as tradições orais.

Na mesma capela há dois banquinhos de madeiras postados frontalmente um em relação ao outro, chumbados nas enormes colunas de uma janela. Dizem que ali ficavam os fiéis e vigilantes capangas do Serra Negra a vigiar o horizonte enquanto ele fazia diariamente suas orações. Reza a tradição que uma vez o fazendeiro, ao se sentar num destes banquinhos, sofreu um atentado à bala, de algum pistoleiro postado nas proximidades. Não sabemos se o Bacelar chegou a se ferir e nem se o pretenso assassino foi descoberto ou capturado. Daí para o curral das onças seria só mais um passo... Talvez seja só mais uma lenda...

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 NESTA POSIÇÃO O SERRA NEGRA TERIA SOFRIDO UM ATENTADO

Noutro cômodo do casarão, ambiente lúgubre, adornado densamente por teias de aranhas e repleto de traias e sacarias de milho, nos mostraram uma velha, empoeirada e rangente cama, com peças bem torneadas, de estilo colonial e de durabilíssima madeira de lei, que teria pertencido ao famigerado latifundiário. Como de costume naquela época, deve ter tido muitos filhos bastardos, tanto com o que restava de indígenas como de negras...

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 ESTA CAMA SERIA A ORIGINAL DO SERRA NEGRA

No muro da casa que dá acesso ao espaçoso quintal, os blocos rochosos esculpidos estão à mostra, sem argamassa. São pedras que pesam de dezenas até talvez mais de cem quilos. Uma delas, localizada na base da parede, ostenta gravada a data de 1766. Porém, não sabemos qual a razão, o bloco de pedra está invertido. Não cremos que isso tenha sido uma distração dos construtores. Seria imperdoável para a importância de uma pedra fundamental do casarão colonial mais importante da Capitania na época. Talvez seja o resultado de algum ritual desconhecido ou superstição?  Segundo alguns esotéricos, símbolos e datas invertidos são comumente associados com adoração ao demônio. 

O que é certo é que contam as tradições que Luís Carlos Abreu Bacelar, o Serra Negra era chegado a uma bruxaria, ocorrendo rituais sabáticos em sua fazenda. Mas são apenas lendas. Não há confirmação histórica disso. Mas naquelas solidões rurais...

Seria esta a data de assentamento dos alicerces do casarão? Talvez, mas nós não sabemos quem realmente construiu o volumoso imóvel. Teria sido seu pai, o primeiro Luís Carlos ou ele mesmo?  Um outro parente próximo? O próprio Serra Negra? Ou a fazenda foi adquirida de terceiros?

Estando a referida data de acordo com a construção do casarão, teria sido impossível a sua autoria pelo Serra Negra, já que este nascera apenas uns 15 anos antes. Talvez o mais correto fosse atribuí-la a seu pai, capitão-mor Luís Carlos Pereira de Abreu Bacelar, já com uns 40 anos em 1766, ou ainda ao irmão deste, o riquíssimo curraleiro José de Abreu Bacelar.

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A DATA 1766 INVERTIDA NUM BLOCO DE PEDRA DA CASA.  INVERSÃO RITUALÍSTICA?

O “quintal” é bastante espaçoso e impressiona pelas muralhas parcialmente  em ruínas. Os pontos mais conservados apontam três metros de altura e pelo menos um de espessura. Os blocos são de tamanhos variados, sendo o encaixe facilitado por pedras menores, que preenchem os espaços vazios entre os maiores. Alguns blocos são só ligeiramente desbastados, em forma ligeiramente cúbica ou retangular. Outros são bem facetados e cortados com precisão impressionante. Em alguns trechos do quintal a muralha virou ao longo dos anos um amontoado caótico de pedras. É difícil entender o porquê de tamanha altura e espessura, se o objetivo fora só resguardar animais domésticos. Seria muito mais exequível e menos custoso os tradicionais currais de troncos de aroeira, buriti, carnaúba, etc. Ou pelo menos, uma parede de pedra mais modesta. Mas devemos alertar que era comum esta suntuosidade e dispêndio nos tempos idos dos sertões, inclusive no Piauí. Afinal, não fomos à civilização dos currais?

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 QUINTAL DA CASA-DE-FAZENDA DO SERRA NEGRA

No final do quintal uma peça chama obrigatoriamente a atenção e intriga qualquer visitante. Na base da muralha está um bloco rochoso caprichosamente esculpido em formato hemisférico, que se destaca do plano vertical da muralha. Parece ter sido lapidado com esquadro e sua borda possui bitola milimetricamente uniforme.Certamente era uma peça muito importante, para merecer tamanha atenção e perfeição. Possui ainda uma saída retangular convergente e inclinada para fora dos limites da muralha, certamente para escoar algo. Disseram-nos que se tratava de um assento sanitário, o que nos pareceu crível.  Seria bem mais exequível do que a suposição alternativa de que fosse um cocho, aquele recipiente para servir água ou comida ao gado. Com efeito, não se justificaria esculpir a rocha com tamanho esmero neste sentido, quando se poderia utilizar um tronco de madeira, na forma de uma simples gamela. Por mais que o gado fosse a vida do sertão, nunca se chegaria a tal absurdo.

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 MURALHA DO QUINTAL DA CASA-DE-FAZENDA DO SERRA NEGRA.

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 UM “VASO SANITÁRIO”? ESCULPIDO NA PAREDE DO QUINTAL DA CASA-DE-FAZENDA

Do lado esquerdo da casa, em um plano de desnível, há um curral de pedra. Chama a atenção a impecável escadaria que dá acesso a ele, onde tanto no “corrimão” como nos batentes se destacam longos e bem polidos blocos. Alguns devem pesar bem mais de cem quilos. Da mesma maneira que o dito quintal, impressiona pela imponência e regularidade dos blocos, a maioria perfeitamente cortados e encaixados.

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  CURRAL DE PEDRA CONJUGADO Á CASA-DE-FAZENDA 

O Luís Carlos Serra Negra ou outro presumível construtor do local devia dispor de muitos escravos, pois optou por imensas estruturas de pedras polidas e facetadas, declinando do uso de troncos de carnaúba, aroeira, buriti, etc., muito comuns em priscas eras. Mas, como dissemos, naquelas eras pretéritas o poder do latifundiário piauiense era medido pela importância de seu gado, os colossais currais eram indicativos de poder e riqueza. Ao mesmo tempo mostravam o cabedal de escravos que o potentado possuía. Estes tipos de cercados pareciam mesmo ser muito mais importantes do que a própria moradia do proprietário. Currais ou cercados de madeira seriam dos fazendeiros mais lisos... De fazendeiros sem grande poder, com pouco gado e poucos escravos... O homem mais rico e poderoso do Piauí, por volta de 1800, demonstrava sua riqueza e poder nas suas inigualáveis muralhas de pedras. 

Do casarão fomos até os intrigantes currais dos quais se diziam que o Serra Negra guardava suas mimadas onças. Trata-se de dois impressionantes currais de pedra geminados, localizados a uns duzentos metros da frente do casarão. São quase de tamanhos iguais. O maior possui cerca de 35x35 metros. Impressionam não só pela solidez mas também pela precisão do talhe nas rochas, resultando algumas em  paralelepípedos perfeitos. Outros blocos rochosos possuem formas irregulares, mas, foram igualmente desbastados pelo buril do escravo. Por um momento, guardado as devidas proporções, parecia que estávamos contemplando as fortalezas andinas de Cuzco, Machu-Pichu e Tiahuanaco...  

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 IMPRESSIONANTE MURALHA DE UM DOS CURRAIS.

As porções mais elevadas e conservadas da construção monumental também apresentam uns três metros de altura. Alguns trechos estão em ruínas.  Cada curral possui duas saídas passagens que os interligam.

Impressiona mais do que nunca a regularidade dos blocos das portas de entrada ou cancelas. São perfeitamente desbastados em formatos geométricos. Uns são quadrados perfeitos, outros retangulares. Alguns, entretanto, apresentam formas retilíneas e em “L”, resultando em encaixes perfeitos. Custa-nos entender porque se caprichou tão exageradamente no corte dos blocos das entradas ou “cancelas”.

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A ENTRADA DE UM DOS CURRAIS.

Um dos nossos guias nos acrescentou que era interessante saber que o material das pedras, arenito, em sua maioria, veio de longe, pois a rocha não ocorre em grande quantidade nas proximidades. Nada de estranhar para quem tinha muito poder, dinheiro, escravos, tempo, disposição, ostentação e objetivos. Como passamos pouco tempo na fazenda, não pudemos investigar de que pedreira veio a maioria dos blocos rochosos que compõe a arquitetura da Serra Negra.

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 DETALHE DE BLOCOS POLIDOS E ENCAIXADOS DA ENTRADA DOS CURRAIS.

Nós descrevemos sumariamente três dos currais ou cercados de pedra: o “quintal”, o lateral do casarão e estes geminados. Estes geminados seriam os currais das onças das tradições, o que não nos parece crível.

O Historiador Alencastre (1831-1871) nos diz que cada fazenda antiga possuía pelo menos três currais, os quais eram denominados conforme suas funções específicas:

Chamam curral de vaquejada àquele em que se recebe o gado que tem que ser vendido, onde se tira o leite, e onde se faz o rol de porteiras; curral de apartar, o que se recebe todo o gado indistintamente, para ao depois ser distribuído pelas diferentes acomodações; curral de benefício, onde se recolhem os garrotes para serem ferrados, e para se fazer as partilhas dos vaqueiros.

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 UM DOS IMENSOS CURRAIS

Essas denominações hoje inexistem no nosso sertão, segundo podemos averiguar. Porém nos é lícito supor que, se tal procedimento existisse na fazenda Serra Negra, o curral de apartar seria exatamente o geminado, justamente por serem vizinhos e com porteiras ou passagens entre si. A seleção do gado poderia ser feita com os dois espaços. O de vaquejada poderia ser o quintal. O de benefício poderia ser o lateral ao casarão.  Mas isso é só uma suposição, pois não sabemos se aquela disposição colonial estava necessariamente em voga na fazenda Serra Negra. 

Por fim, tememos sobre a descaracterização progressiva da sede da fazenda Serra Negra. Embora o casarão e suas muralhas ainda tenham muito de original, não vemos empenho no sentido de evitar as naturais deteriorações. O local deveria ser preservado e tombado como patrimônio histórico. Suas raízes, tradições e história merecem tal feito. 

O casarão foi tombado por Decreto Estadual Decreto: Nº 12.135 de 15/03/06, mas está muito mal conservado e necessitando reparos. Inadmissível que o Estado deixe ruir o mais antigo e elaborado arquitetonicamente exemplar de moradia rural de nossos sertões...

 Ainda temos muitas matérias sobre Luís Carlos Abreu Bacelar, O Serra Negra para editar.

Fontes:

Alencastre, José Martins Pereira de. Memória cronológica, histórica, corográfica da Província do Piauí. COMEPI, Teresina, 1981. Ed. Original de 1855. 

Brandão, Wilson. Formação social. Cap. I de Piauí: Formação-desenvolvimento-perspectivas, organizado por R.N. Monteiro de Carvalho. FUNDAPI, Teresina, 1995

 
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