O Carnaval em Teresina há 100 anos

O Carnaval é a festa popular mais tradicional do Brasil, embora já bastante desvirtuada de suas formas originais, que hoje mistura gêneros musicais e modismo que nada tem da festa secular. Do Brasil Colonial até o início dos anos 1900 era mais conhecido como entrudo, uma festa muito grosseira. Para as famílias havia o Entrudo Popular, para o povão, o Entrudo do Povo.

Segundo www.wikipedia.org, comemorado em Portugal desde o século XV, o entrudo foi trazido pelos portugueses para a então colônia do Brasil e em finais do século XVIII era já praticado por todo o território. Consistia em brincadeiras e folguedos que variavam conforme os locais e os grupos sociais envolvidos. Com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, surgiram as primeiras tentativas de civilizar a festa carnavalesca brasileira, através da importação dos bailes e dos passeios mascarados parisienses, colocando o Entrudo Popular sob forte controle policial. A partir do ano de 1830, uma série de proibições vai se suceder na tentativa, sempre infrutífera, de acabar com a festa grosseira.

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JOGOS DURANTE O ENTRUDO FAMILIAR NO RIO DE JANEIRO. AQUARELA DO INGLÊS AUGUSTUS EARLE (1793-1838), CERCA DE 1822. ESTAS BOLAS BRANCAS QUE OS CARNAVALESCOS ATIRAM UMAS NOS OUTROS ERAM RECHEADA COM UM LÍQUIDO DE LIMÃO DE CHEIRO, ANTECESSOR DO LANÇA-PERFUME. REPRODUÇÃO

  Primeiros carnavais em Teresina

Já nos distantes anos da década de 1860 temos notícias dos carnavais em Teresina. Na imagem abaixo, extraída do jornal teresinense A Imprensa, sobre o Carnaval de 1866 na ainda criança Capital, refere-se à convocação dos foliões bacantes ao Clube Recreio Therezinense, os quais, após identificados, sairiam à tarde pelas principais (e poucas) ruas da Cidade guiados por uma banda musical. Às seis horas da tarde voltariam ao clube onde, depois de REFUCILAREM um pouco, sairiam novamente para continuar os festejos. Refucilar está atualizado em refocilar, ou seja, descansar, recobrar as forças.

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CONVOCAÇÃO AOS TERESINENSES PARTICIPANTES DA SOCIEDADE  BACANTE PARA O EVENTO MOMESCO NO RECREIO THEREZINENSE. FONTE: JORNAL A IMPRENSA, TERESINA, 02 DE FEVEREIRO DE 1866.

Este desfile era bem aceito pela sociedade conservadora da época, sendo também bem comportado se comparado ao pagode que havia no Entrudo. Acompanhava este desfile a banda musical, sendo que era recebida em várias casas familiares, onde dançavam quadrilhas bem ensaiadas. Os membros da sociedade bacante eram descritos como bem vestidos, inclusive a caráter. Muitos usavam máscaras, divertindo-se e animando entusiasticamente o povo que acompanhava o corso. Era uma festa deveras contagiante para o teresinente daquela época, pouco acostumado a eventos festivos. Esse tipo de corso deveria ser a pé, cavalo ou em carruagens. E o povão assistiam também com muito entusiasmo.

Este Clube Recreio Therezinense era instalado na Rua Grande, hoje Rua Álvaro Mendes. Lá havia para lazer bilhar e outros jogos lícitos além de sorvetes às 11 horas e 19 horas. Era propriedade de João Serafim da Silva que ademais desempenhava as funções de cabelereiro do seu clube. Serafim também promovia bailes de máscaras durante o Carnaval.

Havia também outros destes corsos, com a da Sociedade União, com 40 sócios, que saíam da Praça Saraiva ou da Praça Pedro II (antiga Praça Aquidabã) e culminava em grande baile no Teatro 4 de Setembro.

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PROPAGANDA DE 1870, QUE MOSTRA O CARNAVAL DE RUA E EM SALÕES. FONTE: JORNAL A IMPRENSA, TERESINA 11 DE FEVEREIRO DE 1870.

Naquelas épocas, como hoje, as lojas se empanturravam de artigos carnavalescos, que eram vendidos com abundância para os foliões, ávidos das festividades. Eram tecidos, máscaras, seda, lantejoulas, diademas, papelão chapéus, capacetes, etc.

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ANÚNCIO PUBLICITÁRIO DA LOJA AU BOM MARCHÉ, DO EMPRESÁRIO JOSÉ CABRAL ARNAUD, GRANDE LOJA SITUADA NA RUA ÁLVARO MENDES OU SENADOR TEODORO PACHECO. FONTE: JORNAL A IMPRENSA, TERESINA, 31-DE JANEIRO DE1880.

Já naquela aurora do carnaval teresinense havia a preocupação das autoridades em coibir o uso de máscaras sem registro do folião bem como a utilização dos adereços de autoridades civis, religiosas ou políticas. Por exemplo, no Carnaval de 1883, o secretário interino da Polícia do Piauí Carlos de Souza Martins baixou norma que todos os foliões que fossem brincar mascarados deveriam ir à chefatura e registrar num cartão (tipo crachá) seu nome com rubrica e identificação da máscara, para ser utilizado nas vestes em local visível para os policiais. A mesma norma proibia pessoas se fantasiarem de vestes religiosas ou policiais.

A Praça Uruguaiana/Rio Branco

Em Teresina, embora de maneira mais tímida o Carnaval assumiu feições mais marcantes no início do século XX, notadamente em Teresina. E Carnaval tinha um nome principalmente no período 1900-1930: a antiga Praça Uruguayana, e depois, Praça Rio Branco. 

A cidade de Teresina nasceu e cresceu em torno do Largo do Amparo, depois Praça da Constituição e hoje Praça Marechal Deodoro da Fonseca. Porém a vida social do teresinense no sentido de lazer e eventos sociais teve seu início na formosa Praça Rio Branco.

E como era o Carnaval há uns 100 anos, por volta de 1913-1914? Na época os locais dos teresinenses se divertirem com as festas carnavalescas, de crescente aceitação popular eram os clubes, a antiga Avenida Frei Serafim e, como dissemos principalmente a Praça Uruguaiana/Rio Branco, para onde convergia a elite da Cidade.

Nos clubes destacavam-se o Clube Recreativo Therezinense, entidade fundada em maio de 1912. Não confundam este clube século XX com seu quase homônimo do século anterior, Clube Recreio Therezinense. No Smart Clube havia o vesperal para as crianças

A Av. Frei Serafim era ricamente ornamentada para batalhas de flores, confetes e lança-perfumes. Geralmente duas bandas de músicas animavam os foliões durante todo o período das tardes carnavalescas. Para lá convergiam as famílias e membros de clubes. 

Mas foi na Praça Rio Branco, com seus cafés (como o Café Internacional); o Botequim Therezinense (inaugurado em dez. de 1911); o Teatro de Variedades e Café Familiar, de José Galhardo, inaugurado em 02 de julho de 1914; a farmácia Botica do Povo, fundada em 1886, da família Lopes; a Mercearia Piauhyense, de Chistiano Baptista da Cunha, pelo lado da Areolino de Abreu, com sortimento variadíssimo de gêneros alimentícios e outros; jardins embelezados pelo intendente Tersandro Gentil Pedreira Paz (1878 - ?); sede do jornal oficial Diário do Piauhy; algumas outras lojas e o exuberante coreto, que mais se destacou o Carnaval de Teresina durante as três primeiras décadas do século XX. 

Segundo trecho eletrificado de Teresina (após a Praça Marechal Deodoro), em 1914, no ano de 1911 teve seu belíssimo coreto coberto montado na administração municipal do intendente Tersandro Paz, que além de político era também farmacêutico e comerciante (farmácia dos Pobres na Rua Paissandu),  e ainda  industrial (Tipografia Paz, Rua Paissandu, funcionava a vapor). 

Tersandro Paz governou por dois mandatos consecutivos a Intendência de Teresina, de 11-09-1910 até 01-01-1917. Devemos a ele não só a instalação do coreto da Praça, mas também a belíssima jardinagem de estilo francês que fazia o diferencial do logradouro em relação a outros.

Durante todo o para ali convergia semanalmente a fina flor de nossa sociedade, finamente bem vestidos, onde se passeavam pelos elegantes jardins, se cumprimentavam parentes, era possível se consumir chocolates, sorvetes, charutos, caramelos e doces, vinhos, cerveja gelada, sucos etc.. Era ali que de maneira contínua a banda do Corpo Militar animava as tardes de domingo com suas retretas.

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IMAGEM DE AUTORIA E DATA DESCONHECIDA. REPRODUÇÃO.

A energia elétrica, implantada em Teresina em 1914 deu grande impulso na maior expansão social da Praça Rio Branco como point de lazer na Capital. Antes  a iluminação publica atingia somente as ruas, à base de acetileno. Os estabelecimentos que varavam a noite possuíam então suas próprias lâmpadas com combustíveis. Vejam o anúncio de 1908, antes da instalação da Usina Elétrica na Cidade:

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PROPAGANDA DE UM CAFÉ DA PRAÇA RIO BRANCO MOSTRANDO SEUS SISTEMAS DE ILUMINAÇÃO INTERNA: ACETILENO E GASOLINA. FONTE: JORNAL A GAZETA, TERESINA, 02 DE DEZEMBRO DE 1908.

Somente no governo de Dr. Antonino Freire, mais precisamente em 1912, seria iniciado o sistema de iluminação termoelétrica elétrica de Teresina, inaugurado oficialmente em 1914, no governo de Dr. Miguel de Paiva Rosa.

Os jardins e o coreto, aliados aos botequins e bares ofereciam o que havia de melhor aos frequentadores do local mais charmoso de Teresina nas três primeiras décadas do século XX.

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ANÚNCIO DO BOTEQUIM THEREZINENSE, NA AINDA PRAÇA URUGUAYANA ANUNCIANDO PRODUTOS MUITO REQUISITADOS, COMO SORVETES E BEBIDAS GELADAS. FONTE: JORNAL DIÁRIO DO PIAUHY, TERESINA, 19 DE DEZEMBRO DE 1911.

Em 16 de março de 1912 a pitoresca Praça Uruguayana teve seu nome mudado pelo Conselho Municipal da Cidade para Praça Rio Branco, uma homenagem ao então recém falecido José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845-1912), grande advogado, diplomata, geógrafo e historiador brasileiro.

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IMAGEM MUITO ANTIGA (1925) DA PRAÇA RIO BRANCO. OBSERVEM A ARBORIZAÇÃO COM PALMEIRAS e OS POSTES DE FIAÇÃO ELÉTRICA. O BELÍSSIMO CORETO METÁLICO, APRESENTA BALAUSTRES E EXTENSO PINÁCULO SOBRE A COBERTURA. REPRODUÇÃO DE ORIGEM DESCONHECIDA.

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ESTA OUTRA IMAGEM, DATADA DE 1913 E DE ORIGEM DESCONHECIDA, É DA ÉPOCA DOS ACONTECIMENTOS CARNAVALESCOS QUE DESCREVEMOS. 

O coreto e o jardim eram o coração da Praça. A estrutura metálica foi implantada no final de 1911, com material importado da Europa pelo governo estadual e entregue a intendência Municipal de Tersandro Paz.

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NOTÍCIA DA IMPLANTAÇÃO DO CORETO. FONTE: JORNAL DIÁRIO DO PIAUHY, TERESINA, 12 DE DEZEMBRO DE 1911.

Surge o lança-perfume

Nas folias de Carnaval da Praça Rio Branco destacava-se a tradicional Batalha do lança-Perfume. Segundo o site www.wikipedia.org, o lança-perfume apareceu no Carnaval em 1904, no Rio de Janeiro, sendo rapidamente incorporada aos festejos carnavalescos de todo o Brasil, principalmente nas batalhas de confete, corsos e, mais tarde, nos bailes. O produto tornou-se símbolo do Carnaval.

O lança-perfume foi industrializado pela Rhodia (empresa francesa) e importado para o Brasil a partir de sua sede na Argentina. Em 1922, era fabricado o primeiro Lança-perfume nacional pela Rhodia instalada em São Bernardo do Campo (SP). A marca Rodouro foi muito solicitada nos carnavais brasileiros, até que os foliões passaram a utilizá-la como bebida espirituosa ou inalá-la profundamente. A partir de então, foi proibido o uso em salões e mais adiante a sua comercialização, em 1961. Mas ainda se passariam alguns anos até que fosse quase que totalmente extirpado das festas.

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PROPAGANDA DO LANÇA-PERFUME, JÁ FABRICADO NO BRASIL A PARTIR DE 1922. FONTE: WWW.IBAHIA.COM.

O Lança perfume tinha talvez como antepassado a bola de Limão de Cheiro, que os jovens e cavalheiros lançavam uns nos outros nas festas sociais ou o povão em suas comemorações, o que também era acompanhado grosseiramente de urina, água com tinta e outros produtos menos recomendáveis. Aliás, ainda no corso dos anos 1960 ali pela Avenida frei Serafim, além dos sacos com água que os expectadores jogavam nos veículos que desfilavam e vice-versa ainda era comum os sacos com urina.

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AQUARELA DE AUTORIA, DATA (PROVAVELMENTE FINAL DO SÉCULO XIX) E LOCAL DESCONHECIDOS, PROVAVELMENTE NO RIO DE JANEIRO OU SALVADOR, MOSTRA A GROSSERIA DO ENTRUDO. FOLIÕES LANÇAM DA JANELA ÁGUA A PARTIR DE JARAS OU EXCREMENTOS E URINA ATRAVÉS DOS PENICOS. OS DE BAIXO PROCURAM REVIDAR. NO MEIO DA IMAGEM, PARTE DE BAIXO, VÊ-SE UM HOMEM VENDENDO AS BOLAS DE LIMÃO DE CHEIRO.

As Fantasias e adereços

O Jornal teresinense DIÁRIO DO PIAUHY de 18 de fevereiro de 1912 publicava uma emocionante notícia sobre mais um dia de carnaval na ainda Praça Uruguayana:

Realiza-se hoje, á tarde, no jardim público desta Capital, animadíssima batalha de lança-perfumes, na qual tomarão parte formosas senhoritas e distintos cavalheiros. A música de polícia executará, então, bonito programa, completando, desta forma, o encanto irresistível da alegre diversão.

A julgar pelo entusiasmo com que foi aceita a ideia da projetada batalha, vai ser ela a nota mais em destaque desta época de carnaval, que está a passar.

O Sr. intendente Municipal tem auxiliado com muito gosto a comissão promotora da atraente diversão que começara ás 05 da tarde e terminará as 09 horas da noite....Por ordem de S.S. o jardim público ficará iluminado hoje até alta noite.

Carente de lazer de porte, a multidão se entusiasmava e participava do evento, embora na Praça Rio Branco houvesse o predomínio absoluto de pessoas da elite teresinense. Afluíam para ali cavalheiros, crianças, senhoritas, senhoras. O próprio governador Miguel Rosa e sua esposa participavam destes eventos.

O jornal DIÁRIO DO PIAUHY, de 01 de março de 1914 assim descreveu a euforia carnavalesca na Praça Rio Branco:

No domingo a Praça Rio Branco apresentava um aspecto deslumbrante, reunindo uma multidão nunca vista entre nós a se comprimir, numa azáfama que era bem a loucura carnavalesca. E cabia bem à vista o evento daquela profusão de cores estridentes, combinadas com toilletes ora artisticamente confeccionadas, hora extravagantemente concebidas combinando cores que pela primeira vez se encontravam.

A banda do Corpo Militar de Polícia executava do pavilhão um lindo programa rigorosamente carnavalesco, em que predominava o compasso escandante do maxixe que tão bem sabe agitar os nervos e incendiar a alma brasileira.

Infelizmente não possuímos nem sabemos da existência de nenhuma imagem do que descrevemos sobre estes carnavais da Praça Rio Branco. Mas a riqueza descritiva de detalhes é importante. Homens e mulheres fantasiavam-se cada um conforme sua criatividade. O Jornal DIÁRIO DO PIAUHY de 01 de março de 1914 descreve algumas das fantasias de senhoras e senhoritas da época:

As senhoritas Amália Pinheiro, Maria de Lourdes Abreu, Angilla e Adélia Ribeiro uniformizadas a azul e branco, artisticamente combinados numa fantasia simples e linda. Utilizavam capacetes com as mesmas cores. 

As senhoritas Maria Luisa Rubim, Antonieta Lima e Nenê Costa formando um grupo que vestia fantasia creme com apanhado de filó preto.

Senhorita Alzira Freire fantasiada de turca, vestido de veludo grenat, blusa de cetim amarelo pontilhado em lantejoulas, boleto de veludo grenat decorado com medalhas douradas, faixa de seda rosa com listas rubras e sapatos de pelúcia encarnado.

Senhorita Chaguinha Freitas trajava lindo uniforme caçadora, executado em veludo marrom com botões dourados, cinto largo de verniz preto, chapéu de castor com plumas negras, polainas e sapatos marrom Foi uma das mais bem arranjadas fantasias deste ano.

Mademoseille Midú Lopes fantasiada de fada. Lindo efeito vestia cetim azul com apanhados de talagarça dourada combinada com franjas e galões, também dourados.

Como se observa, já naquela época as moças caprichavam diligentemente em suas fantasias, procurando uma gama de variedade que não deixassem par nos encontros.

Infelizmente só podemos inferir a riqueza destas fantasias observando similares em carnavais de outros estados mais evoluídos.

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PODERÍAMOS IMAGINAR LIVREMENTE ALGUMAS DAS FANTASIAS DA PRAÇA RIO BRANCO COMO ESTAS. IMAGEM DE ÉPOCA E AUTORIA DESCONHECIDA. FONTE: http://turismo.culturamix.com/atracoes-turisticas/carnaval-antigo

As batalhas de lança-perfumes na Praça Uruguaiana/Rio Branco

Como se davam estas batalhas tão almejadas onde a arma era o lança perfume? Deixemos as notícias da época dizem diretamente através de recortes de jornais:

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FONTE: JORNAL DIÁRIO DO PIAUHY, TERESINA 17 DE FEVEREIRO DE 1914.

Armas nas mãos de cavalheiros, senhoras e senhorinhas...artilharia...mas era só lança perfume. Uma verdadeira obsessão da época. Sem lança-perfume talvez o brilho do carnaval fosse muito fosco. Foliões em vésperas do evento momesco acorriam avidamente às lojas das ruas Paissandu e Bella para adquirir o maior número possível dos Rodós, até então importados da Argentina. As batalhas eram organizadas por grupos e possuíam regras rígidas.

Assim, as armas eram canhões de Rodós, ou seja, os lança-perfumes, tidos como completamente inofensivos naquela época. Os homens eram os mais agressivos e combatentes. Porém as mulheres também se destacavam na implacável luta. Com efeito, o jornal DIÁRIO DO PIAUHY de 17 de fevereiro de 1914 descreve o episódio de duas destemidas senhorinhas que enfrentaram de igual para igual alguns marmanjos armados de Rodós, fazendo-os recuar ...e ir homiziar-se em um caramanchão no centro do jardim. Covardia!.

As lutas eram muito organizadas tendo como armas os Rodós de 100 gramas. Haviam grupos organizados, como o da Rua da Glória, o da Rua Grande, os Cadetes de Gasconha, o C & M e o Grupo dos Jovens Turcos. Todos empenhados numa batalha aos gritos de Evoê Baco.

O Carnaval não se encerrava com as batalhas de lança-perfume na Praça Rio Branco, que geralmente durava de 17 às 19 horas. Dali, extenuados, os foliões elitistas se dirigiam para mansões e palacetes de amigos, onde continuavam a festejar ao som de bandas, e ainda usando lança-perfumes.  Havia a magnífica e aprazível mansão ou quinta do Sr. Coronel Antônio Campos, de nome Campina Modesta, para muito inúmeros se deslocava. Ali nos seus salões continuavam os festejos de Baco. Havia também várias outras soirée masquê, ou seja, baile de máscara, como era tradicional a da casa da viúva Thomaz Bem.

Sobrea a dita Campina Modesta, onde se realizavam festas momescas, FUNDAC nos diz que ali funcionou o badalado Clube dos Diários antes de sua inauguração na rua Álvaro mendes em 1925, mas não sabemos identificar o local.

Isso tudo passou e há décadas ninguém lembra de que o Carnaval de Teresina já teve seus dias áureos na Praça Rio Branco. As recordações se desvaneceram sem uma memória escrita e fotografada. Tudo é só nostalgia esparsa e praticamente desconhecida das novas gerações. Parece não ter sequer ficado registro fotográfico daqueles eventos. Mas a maioria de nossos avós e bisavós estiveram por lá.

A atual Praça Rio Branco

Hoje a Praça Rio Branco não é mais o point da cidade, com seus cafés, sorveterias, jardins e coreto. Ainda é um importante centro comercial, religioso e administrativo, com lojas, hotel, Igreja-Matriz, prédio da Receita Federal, etc., embora quase não conserve nenhuma edificação antiga, salvo umas três exceções.

Ali não mais se ouve os gritos dos momescos; não se vê mais as multicoloridas e extravagantes fantasias do entrudo; não se aspira mais o inebriante cheiro do Rodó...São outros tempos....

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A PRAÇA RIO BRANCO EM IMAGEM ATUAL.

Fontes:

Ferreira, Felipe. O livro de ouro do carnaval brasileiro. Rio de Janeiro: Ediouro, 2005.

FUNDAC. Bens tombados e registrados no Piauí. Teresina, junho de 2012.

Jornal A Imprensa, Teresina 27 de janeiro de 1883.

Jornal A Imprensa, Teresina, 02 de fevereiro de 1866.

Jornal A Imprensa, Teresina, 17 de fevereiro de 1866.

Jornal A Imprensa, Teresina 11 de fevereiro de 1870.

Jornal O Piauhy, Teresina 13 de fevereiro de 1909.

Jornal Diário do Piauhy, Teresina 18 de fevereiro de 1912.

Jornal Diário do Piauhy, Teresina, 17 de fevereiro de1914.

Jornal Diário do Piauhy, Teresina 01 de março de 1914.

Jornal Diário do Piauhy, Teresina 01 de março de 1914. 

www.wikipedia.org

http://www.riodejaneiroaqui.com/carnaval/carnaval-entrudo.html

 
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