O casarão Espedito Rezende em Piripiri

De maneira acelerada as cidades do Piauí vão repassando para a lembrança nebulosa seu passado histórico na forma de obras arquitetônicas. Mais e mais edifícios históricos, que contam em si episódios de nossa história política, cultural, familiar e comercial são derrubados sem nenhum empecilho do Poder Público, transformando em escombros e poeira a História e a Cultura de um povo. Uma minúscula proporção destas edificações antigas é salva pelo processo de tombamento.

Piripiri não fica fora deste triste padrão. Pouquíssimos casarões, chalés ou prédios comerciais antigos sobreviveram ao avassalador rolo compressor da modernidade comercial e urbana. Nesta Cidade existe apenas um prédio tombado pelo Patrimônio Público e por muito pouco este tombamento surtiu êxito.

Trata-se do prédio conhecido como Casarão do Espedito Rezende, localizado na porção central da Cidade, delimitado pelas ruas Coronel Antônio Coelho (frente), Padre Domingos (esquerda) e São Francisco (direita). Consta nos registros da FUNDAC como datado de 1888. Portanto, secular!

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IMAGEM PARCIAL DO CASARÃO HÁ CERCA DE UM ANO.

A imagem orbital abaixo mostra a planta aérea do edifício, construído em L como era comum naqueles tempos, e também são apresentadas as ruas que delimitam o casarão e ainda suas dimensões que totalizam uma área construída de aproximadamente 653m². Portanto, uma imensa relíquia arquitetônica, isso sem incluir um imenso quintal.

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IMAGEM ORBITAL GOOGLE DELIMITANDO A ÁREA CONSTRUÍDA DO CASARÃO BEM COMO SUAS DIMENSÕES.

Histórico

Segundo as notáveis historiadoras piripirienses Cléa Rezende Melo (n.1940) e Judith Santana (1924-1988), o edifício foi construído no final do século XIX pelo Coronel Antônio Coelho de Rezende (1845-1928). Foi Intendente do Município duas vezes (1893-1896 e 1901-1904), após ter sido conselheiro da Intendência (1889). Comerciante e chefe político de prestígio era um homem de muita influência na Vila. O casarão foi palco de importantes reuniões e decisões políticas que afetava a então provinciana Peripery.

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O CORONEL COELHO DE RESENDE, EM QUADRO EXPOSTO NO MUSEU DE PERIPERY.

Com o falecimento do patriarca, herdou o casarão um dos seus treze filhos, de nome Cassiano Coelho de Rezende (1891-1955), comerciante, proprietário e político. Foi secretário do Conselho e da Intendência Municipal por volta de 1911.

Anos após o falecimento de Cassiano, em 1966, o casarão passou formalmente ao domínio seu Filho Espedito Coelho de Rezende (1922-1981), bacharel em direito e diplomata de carreira. Serviu como embaixador em Assunção (Paraguai), Buenos Aires (Argentina), Roma (Itália), Santiago (Chile) e em Bruxelas (Bélgica).Também  embaixador do Brasil no Vaticano, morreu em Roma, trazendo grande consternação ao povo piripiriense. Dizem que o embaixador fez tudo para preservar seu lar. Porém suas longas ausências pelo mundo contribuíram contra este intento. Foi o último Coelho de Resende a ser proprietário do casarão histórico de seu avô. Faleceu de enfarto em Roma aos 58 anos.

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EMBAIXADOR ESPEDITO REZENDE. REPRODUÇÃO.

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O EMBAIXADOR CUMPRIMENTA O PAPA JOÃO PAULO II. FONTE: JORNAL DO BRASIL, 22 DE FEVEREIRO DE 1981.

O casarão entra em declínio

Com a morte do embaixador o casarão que fora de sua família entrou em decadência e abandono, sendo vendido para a família Holanda. Ameaçado ruir pela umidade, cupins e fungos, aquele centenário patrimônio histórico parecia destinado a um melancólico fim. Porém a população piripiriense de mobilizou com veemência para evitar esta catástrofe histórico-cultural. Professores, alunos, entidades, jornalistas, intelectuais e outros se arregimentaram em campanha pela preservação do patrimônio. Afinal, havia poucos anos que o casarão do padre Freitas, o fundador da Cidade virara ruinas sem que houvesse nenhum protesto público. Dois patrimônios inestimáveis virando escombros seria demais...

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O ESTADO DO EDIFÍCIO TALVEZ NOS ANOS 1990.

Pressionando as autoridades a população conseguiu o tombamento do imóvel, mas mesmo assim ainda se passou cerca de uma década entregue as intempéries, ruindo algumas partes, notadamente o teto. Finalmente o Governo Estadual fez cumprir a Lei e reformou internamente o casarão.

O tombamento 

O longo processo de tombamento e salvaguarda do casarão Espedito Rezende  foi resultado do Decreto Nº 9.818, publicado no Diário oficial  Nº 239 de 11/12/97. Data da inscrição no Livro de Tombo: 29/02/98. 

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O CASARÃO JÁ TOMBADO. FONTE FUNDAC.

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PERÍODO DE REFORMAS DO PRÉDIO PELO GOVERNO ESTADUAL.  FONTE GOOGLE MAPAS.

Arquitetura externa

O imenso edifício, com planta em L possui fachada sóbria, sem adereços, sobre calçada alta, apresentando construção típica da arquitetura civil piauiense oitocentista, sem elementos decorativos neoclássicos, com telhado de várias águas.

Há uma imagem muito importante dos primórdios do casarão, que mostra reunida toda a família Resende, do coronel aos seus filhos. Dois detalhes fundamentais nos atraem nesta imagem. A presença da família inteira, inclusive a do patriarca, atesta que a imagem foi tomada antes do ano de 1928, ano que faleceu o coronel Coelho de Rezende.

Talvez mais importante é observar que as paredes frontais da casa ainda não estavam rebocadas, o que torna possível observar a disposição dos tijolos em arco pleno na estrutura em rumos diversos convergindo para a bandeira. Observem ainda as duas portas, com tijolos preenchendo a bandeira, também convergindo obliquamente sobre uma verga reta de madeira. Como pela arquitetura atual podemos observar que estas portas em arco pleno só ocorrem pela Rua Padre Domingos, cremos que a tomada da imagem se deu na calçada daquela Rua. Porém não nas duas primeiras portas, que são muito próximas uma da outra, o que está em desacordo com a imagem antiga da família reunida. Observem como as duas portas desta foto antiga são fastadas entre si. A imagem foi tomada das duas últimas portas da Rua, que hoje estão transmudadas em janelas e inclusive hoje existe um poste de fiação elétrica entre ambas.

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A FAMÍLIA COELHO DE REZENDE REUNIDA. OBSERVEM A DISPOSIÇÃO EM ARCO PLENO DOS TIJOLOS (1). CURIOSO AINDA O PREENCHIMENTO DAS BANDEIRAS ONDE OS TIJOLOS SÃO CONVERGENTES DE MANEIRA OBLÍQUA PARA A VERGA DE MADEIRA (2).

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DETALHE DA RUA PADRE DOMINGOS, QUE APRESENTA QUATRO PORTAS COM ARCO PLENO. AS DUAS DA ESQUERDA HOJE SÃO JANELAS. COMPAREM COM A FIGURA ANTIGA ACIMA E VEJAM QUE A FAMÍLIA ESTÁ POSANDO NUM ESPAÇO LARGO ENTRE DUAS PORTAS. PORTANTO NÃO SE TRATA DAS PORTAS À DIREITA, MUITO PRÓXIMAS ENTRE SI, MAS DAS DUAS DA ESQUERDA.

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AGORA OBSERVEM A SITUAÇÃO DAS “PORTAS” ATUAIS, COM BATENTES, NA VERDADE TRANSFORMADAS EM JANELAS. VEMOS OS ARCOS PLENOS (1) E AS BANDEIRAS PREENCHIDAS COM TIJOLOS E RECOBERTAS POR ARGAMASSA (2). REPAREM QUE A PARTE INFERIOR DA PORTA FOI PREENCHIDA COM TIJOLOS E MASSA, TRANSFORMANDO-AS EM JANELAS (3). FOI ALI QUE A FAMÍLIA POSOU PARA A FOTO, NA RUA PADRE DOMINGOS. CLARO QUE NA ÉPOCA NÃO HAVIA O POSTE.

Pelo lado da fachada principal, voltada para a Rua Coronel Antônio Coelho, o prédio apresenta 21,60 metros, mas não há um padrão simétrico nos vãos. São três portas e três janelas, todas em verga reta, apresentando cercadura em massa ao longo de suas bordas. No teto não há platibanda ou adornos, mas sim o beiral. 

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IMAGEM RECENTE, COM PINTURA NOVA, DA FACHADA DA EDIFICAÇÃO.

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DETALHE DAS PORTAS DE MADEIRA, EM VERGA RETA, COM BANDEIRA DE ARGAMASSA E TIJOLOS, E CERCADURA EM MASSA AO REDOR.

Pela Rua Padre Domingos, lado esquerdo do prédio, a edificação mede 47,50 metros. Possui as duas primeiras portas em arco pleno, as duas portas seguintes (agora janelas) onde se reuniu a família para a foto, também em arco pleno e ao final, onde é reduzida a altura da casa, três janelas e uma porta, todas vedadas com tijolos e argamassa.

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VISTA DA EDIFICAÇÃO PELA RUA PADRE DOMINGOS.

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PORTA E JANELA VEDADAS COM TIJOLO E ARGAMASSA, PELA RUA PADRE DOMINGOS, AO FINAL DO CASARÃO.

Pela Rua São Francisco, lado direito do prédio, há uma série de janelas em verga reta, apresentando como todas cercaduras em massa ao seu redor. Há um padrão geométrico na  série dos vãos.

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VISTA DO PRÉDIO PELA RUA SÃO FRANCISCO.

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TOMADA DISTANTE DO LADO DIREITO DO CASARÃO, PELA RUA CORONEL COELHO DE REZENDE, VENDO-SE A FACHADA LATERAL DA RUA SÃO FRANCISCO.

Arquitetura interna

Se do lado externo a fachada é razoavelmente preservada, internamente, ambiente não sujeito às normas do tombamento, as modificações tornaram o casarão quase irreconhecível.

Impressiona e enormidade da área interna, com corredores, quartos, depósitos, salas, espessas paredes e colunas, etc. A impressão que temos é que com a reforma patrocinada pelo poder público a intenção era deixar aberta a possibilidade de ali se instalar um hotel, pois são muitos quartos e anexos já no ponto de se instalarem banheiros.

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DETALHE DE UM DOS GRANDES SALÕES DO CASARÃO. DUAS ESCORAS DE MADEIRA TALHADA SUSTENTAM AS TERÇAS DE CARNAÚBA, QUE POR SUA VEZ DÃO SUSTENTAÇÃO AO TELHADO.

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ENQUANTO QUE AS TERÇAS E OS CAIBROS SÃO ANTIGOS, DE CARNAÚBA, AS RIPAS E TELHAS FORAM COLOCADAS RECENTEMENTE.

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DETALHE INTERNO DO TELHADO, COM SEUS CAIBROS, TERÇAS, RIPAS E TELHAS, ESTAS DUAS ÚLTIMAS RECENTES.

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DETALHE DO BEIRAL, SUSTENTADO POR TRONCOS DE CARNAÚBA.

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OUTRO DOS IMENSOS SALÕES DO CASARÃO.

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O PISO ORIGINAL É DE LAJOTAS REGULARES DE CERÂMICA BRUTA, MAS BEM FORNIDA, COM DIMENSÕES DE 17 x 17 x 3,5 CM. A MAIOR PARTE JÁ ESTÁ BASTANTE DESGASTADA.

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A PORTA DE UM DOS APOSENTOS. A MADEIRA É NOVA, PORÉM A BANDEIRA (1) SOBRE ELA PARECE SER BEM ANTIGA.

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UMA DAS ESPESSAS COLUNAS INTERIORES.

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ESTA PASSAGEM PARA VÁRIOS COMPARTIMENTOS EM UM CORREDOR É FEITA ATRAVÉS DE UMA ABERTURA EM ARCO ABATIDO (SUAVEMENTE CURVADO), ÚNICO EXEMPLAR DA EDIFICAÇÃO.

O futuro do casarão

A manutenção da estética externa na edificação está garantida pelo tombamento por parte da FUNDAC. Internamente, a ocupação comercial de maneira racional do que já foi bastante modificado garantirá que o ambiente esteja sempre bem cuidado, com circulação de ar, eliminação de cupinzais, erradicação de mofo, etc. 

Ali deve ser inaugurado agora neste março de 2015 um bar estilo “pub”, com música leve ao vivo, um investimento arrojado de três jovens piripirienses. Nos compartimentos onde será instalado o empreendimento foi colocado forro acústico no teto e janelas.

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FORRO ACÚSTICO NO TETO PARA GARANTIR SOM DE QUALIDADE AO “PUB”.

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LOCAL ONDE FUNCIONARÁ PARTE DO BAR E A COZINHA.

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PROJETO GRÁFICO DO PUB. REPRODUÇÃO.

Parece que pelo menos não precisamos mais nos preocupar com o patrimônio do casarão que chegou a ruir parcialmente. É confortante saber que do jeito que está vai ficar. Resta saber o que será feito pelo Poder Público de uns três ou quatro edifícios antigos e de grande valor arquitetônico de Piripiri, um dos quais também do século XIX. Seria importante que a luta em que se engajou parte da população piripiriense para preservação do casarão Espedito Rezende não tenha sido em vão e se transponha para outras edificações.

Fontes:

Melo, Cléa Rezende Neves de. Memórias de Piripiri. Segunda edição, 2001.

Santana, Judith. Piripiri. Teresina, 1972.

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